
Esse ano de 1986 me parece ser muito especial. No final das contas ele nem terminou ainda e já sinto que será o ano mais especial da minha vida. Eu sinto também que ele entrará para a História. Eu poderia falar somente da explosão cultural que estamos vivendo. Na música estou vendo e ouvindo nascer grandes bandas que serão adoradas até no futuro. Como trabalho em rádio e sou estudante do primeiro grau numa escola estadual, estou agora ouvindo o primeiro LP dos Paralamas do Sucesso, dos Titãs, da Legião Urbana, do Capital Inicial. Isso só para citar algumas das bandas que embalavam as pistas das discotecas e danceterias. Aliás, isso é uma coisa que me perturba, ou seja, se devo chamar de discotecas ou danceterias? Recém ali atrás até o início dos anos 80, ninguém chamava de danceteria. Era só discoteca. Lembro-me que combinávamos de final de semana de ir em dois lugares. Primeiro no cinema e depois perto da meia noite, na discoteca. E, sim, na minha cidade quando eu tinha 14 anos, tinha um cinema, todo de madeira. Era enorme e tinha dois andares. Quando tinha filme de terror era bem original, pois os morcegos que viviam no sótão passavam voando em frente a tela de vez em quando.
Agora imagina a minha alegria e o frio na barriga, pois estou em plena adolescência e juventude, dançando, viajando num período que chamam a juventude de gatinhas e gatões, tanto no Brasil como também no resto do mundo e ainda estou vivendo um tempo onde há duas superpotências econômicas e que cada uma delas tem uma bomba atômica e elas competem pela hegemonia do mundo. O que mais ouço falar no rádio e na tevê e nos jornais é o nome que deram para essa guerra: Guerra Fria. Imagina se poderia haver momento mais fervoroso e interessante para se viver? E ainda na juventude? Estou no olho do furacão, por dentro de tudo. Eu trabalho como sonoplasta numa emissora de rádio AM da cidade. Numa rádio aparece tudo o que acontece no mundo e isso me faz uma pessoa bem informada sobre o mundo. Nada pode me deixar mais feliz, nada. As paixões de adolescente, ecoavam no peito e na barriga. Falei bastante, mas não tudo das minhas experiências nesse ano que já marcou do início até esta metade. Agora por obséquio, deixe-me falar quem eu sou e porque estou escrevendo esta crônica. Sou aluno da sétima série do primeiro grau numa escola pública estadual e meu nome é Júlio Ozas de Souza. Nessa escola tem um Grêmio Estudantil, do qual eu faço parte. O grêmio da escola está promovendo uma gincana e passou nas salas para anunciar com bastante antecedência algumas tarefas. A principal delas era fazer uma crônica ou um conto sobreas memórias da infância, de quando estudava no primário na escola. Mas o principal era escrever sobre algum esporte ou brincadeira que praticava com amigos ou colegas de aula, apresentando como funcionava a brincadeira ou o esporte. Mas apenas um da sala poderia se candidatar pela turma. Foi quando a professora e os demais colegas me escolheram para escrever. Tinha pouco tempo para tal feito. Aceitei o desafio e aproveitei alguns finais de semana de chuva e me lancei a tal empresa.
Fico pensando que hoje em dia nunca mais tive a oportunidade de brincar dos jogos e brincadeiras que praticava na infância, talvez esses anos 80 apresentam tanta novidades e lançamentos que nós adolescentes deixamos as brincadeiras da infância para trás. Não encontrei mais ninguém jogando caçador e nem taco, as duas brincadeiras esporte que me veio de imediato para escrever o conto. E também porque também agora sou um adolescente, ninguém mais me chamaria para brincar de caçador. Mas os colegas da minha sala vieram pedir para mim escrever e participar da gincana da escola. Eu não soube o que dizer na hora, mas logo me surgiu o pensamento de criar uma personagem que contasse sua história de infância. Fazer isso me fez gostar da ideia e comecei a escrever e não parei mais. A tarefa não será fácil, mas também era tentadora, ou seja, estou na adolescência no ano de 1986 e deveria criar uma personagem que escrevesse sobre as experiências dela. Seria como escrever a partir da voz do outro, de uma personagem que contaria suas experiências, sendo que eu como escritor não estaria mais ali. Eu deixaria de existir. Haveria apenas a personagem criada que escreveria duas memórias de um tempo de infância. Para tanto comecei com um nome da personagem principal que criei a partir de uma propaganda de cursos a distância que tinha e ainda tem nas revistas em quadrinhos, e a própria personagem que eu criei é que narra a história. Sendo assim, comecei a escrever.
Meu nome é Rolando Divino de Rocha. Não gosto do meu nome, nem que me chame de Rolando, nem de Divino e nem de Rocha. Mas não sei porque cargas d’água, além de não gostar do meu nome, ainda preciso aguentar a dor de ver os meus amiguinhos e colegas de aula me chamarem por um apelido que não gosto. Passaram a me chamar de Didico. Acho que foi porque certa vez não me contive e falei para meu amigo mais chegado que eu tinha esse apelido dos tempos de infância, quando vivia no circo. Eu pedi ao amigo não contar para ninguém, mas quando percebi os que brincavam e jogavam bola e outros esportes e uma parte da escola, já sabiam, tentar fazer todos pararem era impossível, já era tarde. Aprendi que revelar o apelido de infância é perigoso. Lembro que a parte boa dessa época era quando não me chamavam pelo apelido e começávamosa brincar no final das tardes. Num dia o jogo era de caçador e o outro era bets ou taco. A parte ruim que eu ficava constrangido era que quando terminávamos de jogar quando o sol já caía no horizonte e a noite chegava lançando seu manto escuro e frio, no momento que as mães vinham chamar todos para ir para casa tomar banho e tomar café, pois estava na hora. Era nesse momento que quase todos começavam a cantar uma música do Benito de Paula, Mulher Brasileira e faziam uma espécie de paródia com ela incluindo na letra o meu apelido. Outro lado bom é uma coisa que eu não percebia e que eu jamais saberia. Que eu estava vivendo um tempo que ficaria para sempre na memória pois tinha tanto cantor e cantora e músicas, brincadeiras, escola e, diga-se de passagem, as melhores músicas do samba de grandes cantores, que explodiam nas paradas de sucesso das rádios.
Eu brincava todo final de tarde próximo de casa, num campo de terra que tinha um barranco ao fundo, com uma turminha de amigos vizinhos e colegas da escola. As brincadeiras variavam. As vezes jogávamos bets e as vezes caçador. Para quem não conhece o jogo de bets posso informar que ele também era conhecido como jogo de taco. Esse jogo precisava de uma bolinha de borracha, dois tacos e duas casinhas feitas de gravetos. Uma dupla ficava com os tacos e a outra ficava atrás da casinha. Os gravetos eram colocados de pé um sustentando o outro em forma de uma cabana indígena ao lado de um pequeno buraco na terra, onde o jogador deixava o taco em posição de descanso, ele não pode tirar o taco do buraco. Se isso acontecer o jogador ao seu lado pegaria a bolinha e derrubaria a casinha e assim eles pegavam os tacos para dar continuidade ao jogo. O da casinha tinha o objetivo de ao lançar a bolinha, de derrubar a casinha e o do taco de rebater e lança-la o mais distante possível.
Minha vida não era somente de jogos e brincadeiras coletivas. Eu tinha meus momentos de contato com os outros seres do universo. Eu conversava com um pé de cinamomo. A árvore que tinha tamanho médio, e que ainda estava em crescimento, ficava bem em frente à minha casa e do lado direito de quem saia da casa para a rua. O caminho de entrada e saída da casa era de terra. De um lado ficava o cinamomo e do outro umas plantinhas rasteiras com folhas verdes durante a maior parte do ano. Na primavera essas plantinhas de folhas finas ficavam floridas. O pé de cinamomo sempre verde e as poucas vezes que não estava assim, ficava sem suas folhas e as bolinhas já haviam murchado. Ali era o cantinho rodeado de verde que morávamos eu, minha tia e meu irmão mais velho. A amizade com o pé de cinamomo era divina. Toda vez que eu subia nele ficava lá por horas a contemplar o que era possível avistar e conversando com ele. A árvore e eu tínhamos uma ligação natural, pois quando eu falava, sentia que ela entendia tudo. Eu tinha ela por mim e me sentia seguro e cuidado por ela, pois eu considerava a arvore como uma amiga e protetora. Constantemente eu subia nela com uma facilidade, pois os galhos facilitavam a subida. Cada vez que eu subia no pé de cinamomo, percebia que ele tinha crescido um pouco, ficava mais alto, e tinha vontade cada vez mais de subir até a copinha, pois assim podia avistar o telhado da pequena casinha velha de madeira e ver as outras árvores que ficavam do outro lado da casa, no terreno vizinho, que fazia divisa por uma cerca. De manhã eu era acordado pelos cantos das corruíras alegres e saltitantes com sua prole nos seus ninhos. Logo o Sol aparecia com seus raios se estreitando pelas frestas da janela e da parede do quarto. Era hora de levantar tomar café, se arrumar e ir para a escola.
Um grande abraço caro leitor e até breve!
Professor Pesquisador em Chapecó e membro da ACHE Associação Chapecoense de Escritores
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