
Hoje (7), completamos 204 anos de vida independente como país. Entretanto, o Brasil hoje se cobre de civismo e protesto. O patriotismo, por si só, pouco se viu na história do país, mas não é por isso que esta segunda-feira deixa de ser importante. E para refletir sobre a data que transcorre em uma gravíssima crise institucional, vou escolher uma música estrangeira, e com pesado bastidor político: “Beds Are Burning” (Camas Estão Queimando), da banda australiana Midnight Oil, gravada em 1987.
Esta canção fez um considerável sucesso internacional à época pela boa construção melódica e ritmo dançante, mas principalmente pela mensagem política que inspirou a letra da música: após a turnê do Midnight Oil pelo “Outback”, como é chamado o interior deserto da Austrália, em 1986, tocando para comunidades aborígenes remotas e testemunhando a gravidade dos problemas de saúde e padrões de vida, Peter Garrett, Jim Moginie e Rob Hirst escreveram “Beds Are Burning” para criticar como essas populações eram frequentemente removidas de suas terras.
Considerando que um assunto tão local inspirou um sucesso mundial, Garrett comentou: “Quem diria que uma canção sobre direitos territoriais aborígenes viajaria tão longe?”. Tanto foi o sucesso da música, que quando ela foi interpretada pela banda na cerimônia de encerramento dos Jogos Olímpicos de Sidney, em 2000, sem a autorização do Comitê Olímpico Internacional, todo o estádio cantou junto, inclusive pessoas de fora da Oceania, Europa e América do Norte.
Aplicando à realidade brasileira, hoje temos um interior deserto em nossas próprias instituições. Os direitos territoriais da ética, da moral, dos valores cristãos que moldaram o desenvolvimento do nosso país, da Constituição e da decência estão sendo reclamados nas ruas do Brasil, e as dificuldades para que essas terras dentro das instituições sejam devolvidas são gigantes.
Peter Garrett colheu os frutos da música: seguindo como vocalista do Midnight Oil, passou a trabalhar em instituições de defesa da população aborígene, e foi ministro do Meio Ambiente entre 2007 e 2010, e da Educação entre 2010 e 2013 na Austrália. Muitas das coisas que foram pautadas em “Beds Are Burning” avançaram nas décadas seguintes. Levou tempo, mas deu resultado.
Não se engane quem protesta hoje e votará de forma coerente com o combate à corrupção, a ética na política, e a moralidade em 4 de outubro: não se resolvem os problemas em quatro anos. Se tudo der certo, será uma mudança geracional, e tem tudo pra dar errado. Este Dia da Independência nos recorda que para uma pátria curar suas feridas, ela precisa antes curar a sua cultura, de baixo para cima, do povo para o poder, e não ao contrário.
Recadinhos
- Pouco antes de se aposentar do seu cargo, o ministro do Superior Tribunal de Justiça, Mauro Campbell, criou uma nova camada de burocracia em cartórios: um sistema de selos chamado de Validador Nacional de Selos.
- A novidade permitiria a integração e a fiscalização automatizada dos atos praticados pelos cartórios em todo o país, conforme a newsletter The News.
- Curiosamente, o desenvolvimento e a operacionalização desse sistema ficou a cargo de uma empresa cujo dono é Fredson Encarnação, cunhado da sua mulher.
- O ato foi publicado em 7 de agosto, dias antes dele encerrar seu mandato na Corregedoria Nacional, responsável por fiscalizar os cartórios. Depois da repercussão, a Corregedoria suspendeu o projeto de Campbell até outubro.





