
O Brasil atingiu em 2024 o maior número de ocorrências de estupro dos últimos cinco anos. Dados consolidados no Mapa da segurança pública 2025 apontam 83.114 registros no ano passado, uma alta de 1,1% em relação a 2023 e um crescimento acumulado de cerca de 25,8% em cinco anos. Esse volume equivale, em média, a 227 estupros por dia ao longo de 2024. A maioria esmagadora das vítimas é do sexo feminino, representando aproximadamente 86% dos registros.
Os números revelam não apenas um aumento absoluto dos casos, mas a persistência de um padrão estrutural de violência sexual no país. Em termos absolutos, o Sudeste concentra o maior número de ocorrências, com destaque para São Paulo, enquanto o Norte apresenta taxas proporcionais mais elevadas, indicando que a vulnerabilidade se distribui por todo o território nacional. O dado mais inquietante é que essa violência se mantém elevada independentemente do ciclo econômico, do crescimento populacional ou das variações regionais, o que aponta falhas sistêmicas nas políticas de prevenção e proteção.
É preciso reconhecer que os números oficiais representam apenas uma fração do problema real. A subnotificação segue como um traço estrutural da violência sexual no Brasil. Medo, vergonha, dependência econômica, estigmatização social e desconfiança nas instituições fazem com que milhares de vítimas não procurem a polícia ou os serviços públicos. Assim, os 83.114 registros devem ser lidos como um piso estatístico, e não como a dimensão total da violência sexual praticada no país.
As consequências do estupro ultrapassam em muito o momento do crime. As vítimas convivem com impactos psicológicos duradouros, como transtorno de estresse pós-traumático, depressão, ansiedade, prejuízos à vida profissional e ruptura de vínculos sociais. Mesmo quando há registro formal, a resposta institucional costuma ser fragmentada, lenta e, muitas vezes, revitimizadora, o que reforça o ciclo de silêncio e invisibilidade.
Esse cenário evidencia que o estupro não é apenas um problema criminal, mas um problema central de políticas públicas. A persistência e o crescimento dos casos escancaram fragilidades na prevenção, na proteção às vítimas e na responsabilização dos agressores. A ausência de políticas educacionais consistentes voltadas ao respeito nas relações, a insuficiência de redes integradas de atendimento e a baixa efetividade da resposta estatal formam um ambiente permissivo à repetição desse tipo de violência.
A mitigação dos estupros exige uma abordagem que vá além do discurso punitivo. É necessário investir de forma contínua em educação desde a infância, com foco em respeito, limites e responsabilidade. É igualmente urgente fortalecer a capacidade institucional do Estado, qualificando o atendimento policial, jurídico e de saúde para lidar com a violência sexual de forma técnica, humana e célere. A ampliação de serviços integrados de atendimento às vítimas, especialmente fora dos grandes centros urbanos, é condição básica para reduzir danos e romper o ciclo de silêncio.
Outro ponto central é a qualidade da informação. O aprimoramento da coleta, do tratamento e da transparência dos dados, com recortes por idade, sexo, território e contexto do crime, é essencial para orientar decisões, alocar recursos e avaliar resultados. Sem dados consistentes, políticas públicas seguem operando no escuro.
Se nada for feito, o país continuará convivendo com médias diárias superiores a 200 estupros, normalizando uma violência que corrói a dignidade humana e gera custos sociais, econômicos e institucionais crescentes. O enfrentamento do estupro precisa deixar de ser episódico, reativo e fragmentado para se tornar uma política de Estado, sustentada por prevenção, proteção, responsabilização e cuidado. A inação já mostrou seus números, seus percentuais e seus valores humanos — todos inaceitáveis.







