terça-feira, fevereiro 24, 2026
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Quando números incomodam, cabeças rolam

Confira a coluna do professor Dr. Givanildo Silva

Prof. Givanildo Silva – Doutor em Ciências Contábeis e Administração.

Há algo profundamente errado quando um país começa a tratar seus institutos de estatística como extensões do marketing governamental. O episódio recente envolvendo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística não pode ser relativizado, minimizado ou tratado como mera “reorganização administrativa”. Ele toca no coração da credibilidade do Estado brasileiro.

Uma servidora de carreira, com décadas de atuação técnica, foi retirada de um cargo de chefia em meio a um ambiente de tensão interna, justamente quando cresciam críticas sobre a condução política do órgão. A versão que circula nos bastidores — e que encontra eco em manifestações sindicais e em reportagens — é simples e grave: quando os dados não ajudam a narrativa do governo, o problema deixa de ser o número e passa a ser quem o produz.

O IBGE não é um departamento de comunicação do Planalto. Ele existe para medir a realidade, não para suavizá-la. Crescimento baixo, renda estagnada, produtividade fraca ou indicadores sociais piores do que o discurso oficial não são “erros técnicos”; são fatos. E fatos, por definição, não pedem licença ao poder político.

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O problema se agrava quando esse movimento ocorre sob um governo que se apresenta como defensor da ciência, das instituições e da técnica. O Luiz Inácio Lula da Silva já governou o país outras vezes e sabe, melhor do que ninguém, o peso simbólico do IBGE. Mexer nesse pilar transmite uma mensagem perigosa: a de que a autonomia técnica vale apenas enquanto confirma o discurso oficial.

A situação ganha contornos ainda mais preocupantes porque não se trata de um caso isolado. Há relatos de substituições em áreas sensíveis, desconforto entre quadros técnicos e uma condução centralizadora sob a presidência de Marcio Pochmann. Mesmo que formalmente legais, essas decisões são politicamente desastrosas. Estatística pública vive de confiança. E confiança, quando se perde, não se recompõe com nota oficial.

Países que flertam com a manipulação de dados começam assim: primeiro trocam chefias, depois pressionam equipes, em seguida “ajustam metodologias” e, por fim, pedem que a população acredite mais no discurso do que na realidade que sente no bolso. O Brasil já conhece esse filme — e ele nunca termina bem.

Não se governa contra os números. Governa-se a partir deles. Quando um governo prefere calar técnicos a encarar dados ruins, o problema deixa de ser estatístico e passa a ser democrático. E isso deveria alarmar não apenas a oposição, mas qualquer cidadão minimamente comprometido com a verdade, a transparência e o futuro do país.

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