
Enquanto o debate público se perde em slogans, os números mostram outra coisa: a nova tarifa geral de 15% imposta pelos Estados Unidos cria, pela primeira vez em muito tempo, uma vantagem relativa concreta para o Brasil no comércio internacional.
Não se trata de comemorar imposto. Trata-se de entender comparação. Até poucas semanas atrás, o Brasil estava entre os países mais penalizados do mundo pelas sobretaxas norte-americanas. Em média, nossos produtos enfrentavam tarifas acima de 25%, chegando, em alguns casos, a patamares próximos de 30%. Isso nos deixava fora do jogo em diversos mercados.
Com a decisão recente dos Estados Unidos de substituir o antigo tarifaço por uma sobretaxa uniforme de 15%, o cenário muda. Segundo estudo da Global Trade Alert, o Brasil é o país que mais reduz sua tarifa média entre os grandes exportadores, com queda estimada em 13,6 pontos percentuais. Para comparação: a redução média da China é de 7,1 pontos, e a da Índia, 5,6 pontos.
Isso explica por que analistas internacionais afirmam, sem rodeios: o Brasil é o maior beneficiado relativo da nova regra.
O ponto central é simples: quem era muito taxado e passa a ser “menos taxado” ganha competitividade. Países que antes tinham tarifas baixas — como Reino Unido, Itália e Singapura — agora pagam mais. O Brasil, ao contrário, sobe degraus na disputa por preço, margem e contrato.
Esse reposicionamento ocorre num momento estratégico. O país exportou cerca de US$ 37 bilhões para os Estados Unidos no último ano, com destaque para produtos do agronegócio, siderurgia, papel e celulose, alimentos processados e bens industriais intermediários. Uma redução média de mais de 10 pontos percentuais em tarifa pode significar milhões de dólares em diferença de preço final, algo decisivo em mercados altamente competitivos.
É aqui que entra a maturidade econômica do Brasil. Diferentemente de outros ciclos, hoje o país tem:
- agronegócio altamente produtivo;
- indústria mais integrada às cadeias globais;
- câmbio relativamente competitivo;
- empresas acostumadas a operar com margem apertada e foco em eficiência.
Nada disso garante crescimento automático. A nova tarifa tem prazo de 150 dias, o que exige rapidez e inteligência estratégica. Mas abre uma janela concreta, especialmente para exportadores preparados, cooperativas estruturadas e empresas com capacidade logística.
O erro seria tratar o episódio como propaganda política ou como ameaça. O acerto é tratá-lo como o que ele é: uma oportunidade econômica real, mensurável e comparativa.
Em economia internacional, não vence quem paga menos imposto. Vence quem paga menos que o concorrente. E, neste momento, os números mostram que o Brasil saiu da lanterna e passou a disputar o pelotão da frente.
Cabe agora ao setor produtivo, às entidades empresariais e à diplomacia econômica fazer o que o país sempre fez de melhor quando decide agir com pragmatismo: transformar contexto externo adverso em vantagem competitiva.
A tarifa de 15% não é o fim do problema. Mas, pela primeira vez em anos, ela é parte da solução para recolocar a economia brasileira em movimento no comércio global.





