
Aquela foi uma tarde ensolarada, de muito calor, diga-se de passagem. Fui fazer uma visita ao CAPS AD (Centro de Atenção Psicossocial Adultos). Ele fica no bairro Paraíso em Chapecó e atende adultos maiores de 18 anos usuário de álcool e outras drogas. Quando cheguei dei de cara com o “Humi”, um cachorro vira-lata, mascote do CAPS que vive ali mesmo, bem gordinho, bonito e simpático. Mais tarde, soube que seu nome vem de “humildade”. Quem nos recebeu foi a Mirian Andrade, coordenadora do CAPS AD III. Já na entrada, observei a divisão do espaço em duas alas.
Na sala da coordenação, que fica na ala direita do prédio, eu, confortavelmente sentado, tirei da pasta meu caderno e comecei a fazer anotações, enquanto a coordenadora iniciava a conversa sobre o funcionamento do local. Nesta visita, também havia uma colega estudante que estava colhendo informações. Então, às vezes, vou me referir a “nós” e, às vezes, a “eu” para apresentar minhas percepções sobre o local, pois escrevo este texto a partir de minhas anotações pessoais. Lembro que minha metodologia é no sentido de escrever a partir da narrativa da coordenadora, utilizando minha destreza para anotar, que adquiri com meus anos de repórter de rádio e televisão. Aliás, em todos os eventos que participo, levo comigo o caderno e a caneta para anotar, atitude que também repasso para meus alunos, acostumados a utilizarem o telefone celular para tirar fotos. Digo a eles que há aprendizagem quando eu testemunho o fato com olhos de repórter, historiador ou jornalista, sempre com seu caderninho e sua caneta em mãos, porque não é sempre que podemos contar com a tecnologia.
Durante a entrevista, informei a coordenadora Mirian que, após colher as informações, produziria um texto para publicar. Mas, antes de publicar, eu enviaria o texto para sua leitura, para sua conferência e autorização das autoridades da Secretaria Municipal da Saúde de Chapecó. Foi o que aconteceu. Ele foi autorizado pelos profissionais da saúde de Chapecó, responsáveis pelo funcionamento do CAPS AD III.
No início de sua narrativa, a coordenadora Mirian afirmou que o CAPS AD III, na perspectiva da saúde mental, acolhe pessoas dependentes de álcool e de outras drogas que procuram o acolhimento. Ali existem ambulatórios, salas de oficinas que são realizadas em grupo. Na outra ala, que fica do lado esquerdo da entrada, ficam os leitos onde os acolhidos permanecem até 14 dias, de forma voluntária. Existem ali 12 leitos masculinos e femininos. De forma geral, os acolhidos chegam ao CAPS AD III por
indicação, às vezes de familiares, às vezes de vizinhos, de vereadores, e também muitos chegam ali sozinhos. O horário de funcionamento do acolhimento é das 7h até as 19h. No entanto, sempre fica uma equipe de plantão após esse horário. A pessoa que chega ali é sempre acolhida, e não atendida; esse é o conceito usado: acolhimento, e não atendimento. Ao chegar, a pessoa é acolhida por um profissional de nível superior, com o qual faz o primeiro contato. Além dos médicos, há psicólogas(os), monitora social de artes, enfermeiras(os).
A pessoa que permanece no leito de acolhimento passa pela avaliação do médico e, em seguida, é encaminhada e acolhida por toda a equipe. Se estiver alcoolizada ou em surto, a pessoa não permanece em leito; vai para a UPA ou para o Hospital Regional, onde é estabilizada. O CAPS AD III proporciona o tratamento multiprofissional e elabora um plano de tratamento, o qual é decidido em conjunto com a pessoa, se ela está apta a permanecer acolhida em leito no CAPS AD III e seguir a terapêutica proposta. Os familiares são avisados para trazerem roupas e outros pertences para a pessoa que fica acolhida.
A coordenadora afirmou, também, a importância do cuidado com a equipe que trabalha no CAPS AD III. Disse que trabalhar com pessoas não é tarefa fácil. Quando ela disse isso, lembrei também do meu trabalho em sala de aula e na sala dos professores nas escolas. Mirian disse que não há como desligar, pois é uma grande responsabilidade: “não é só bater o ponto e ir embora; é preciso ajudar os acolhidos com o possível, trabalhando junto, para cuidar também da equipe que trabalha”.
Informou que é uma maneira de cuidar da parte emocional das pessoas no CAPS AD III e para isso existe união entre os que trabalham, para cuidar da sua própria saúde mental, porque caso contrário, a equipe adoece. De novo imaginei como seria bom se isso ocorresse entre os muros das escolas, para com os professores. Sobre as internações, ela informou que existe a modalidade voluntária, a qual acontece somente se o paciente aceitar. Quando a família fizer um pedido ao poder público, para que este o faça, daí é involuntária. A internação compulsória ocorre quando é advinda de despacho judicial. As pessoas com dependência química, associada a transtornos mentais graves, sem vínculos familiares, são encaminhadas para as Residências Terapêuticas, mantendo o vínculo dos pacientes com o CAPS AD III. As Residências Terapêuticas são casas acolhedoras onde os pacientes ficam morando.
Perguntei a Mirian porque CAPS AD III?
Ela respondeu que é porque funciona 24 horas, devido aos leitos, os quais são assistidos por dois psiquiatras, seis enfermeiras e dezesseis técnicos em enfermagem. Também tem cinco psicólogos, sendo um homem e quatro mulheres, cozinheiras e pessoas que fazem a limpeza. Lembrou que existem regras que devem ser seguidas, como hora do lanche, hora do almoço, palestras que devem ser acompanhadas pelos acolhidos, e todos/as devem seguir o grupo e as regras. O acolhido deve entender que há também outras regras, como não levar comida para os quartos, pois acaba sujando o ambiente. Após esse diálogo, a coordenadora me levou para visitar a sala de oficinas; ali pude ver, pela porta, os acolhidos em momento de atividades terapêuticas. Depois, conhecemos a cozinha da equipe que trabalha preparando os lanches e o refeitório dos acolhidos.
Em seguida, a enfermeira Gerusa apareceu para mostrar a outra ala do prédio. Enquanto ia apresentando os leitos, informou que as pessoas que chegam ali para serem acolhidas ficam por até 14 dias e, caso não possuam, recebem roupas até que a família as traga. Recebem também toalhas de rosto e banho e roupas de cama. Mostrou-nos os quartos. Dois quartos têm apenas um leito, e todos possuem suíte, ou seja, banheiro no quarto. Os banheiros dos quartos são utilizados somente na hora do banho, à noite. Durante o dia, os acolhidos utilizam os banheiros coletivos. Há também um quarto que possui três camas e um banheiro. Existe ainda um espaço de convivência, com sofá e TV. Ao lado, há uma porta que dá acesso ao jardim, uma área externa onde podem tomar sol e apreciar o dia, sempre acompanhados por uma enfermeira ou técnica em enfermagem.
A enfermeira, nesse caso, realiza o trabalho de convivência quando não há um auxiliar para acompanhar os acolhidos na área externa. Portanto, caro leitor(a), confesso que vivi uma grande experiência, que veio premiar minhas leituras e estudos em História da Psiquiatria. Com as leituras às quais já tive acesso e com autores considerados referências nessa área, a visita se tornou um prazer e uma relação interativa da experiencia com a teoria, de modo que instigou ainda mais a curiosidade de produzir outros textos sobre o assunto. Pude perceber a organização, a limpeza e os protocolos rígidos que existem ali. Enquanto conversava com a coordenadora e acompanhava a visita guiada pela enfermeira, ia refletindo sobre o que a população em geral, o senso comum, que vive fora desses espaços, pensa sobre o que é um CAPS AD III.
Confesso que aquilo que eu já sabia se fortaleceu ainda mais, ou seja, que não é nada daquilo que as pessoas imaginam sobre esses locais. O CAPS AD III, de modo geral, sofre estigmatização e é, inclusive, objeto de piadas e chacotas entre crianças e adolescentes nas escolas. Um equívoco. Falo isso porque, como pesquisador, também
tenho a experiência de viver o espaço escolar, onde infelizmente o bullying está presente. Esses espaços de acolhimento, como o CAPS AD III, historicamente foram citados de forma negativa por adultos, crianças e adolescentes. Essa visita reforçou em mim o quanto o senso comum está distante da realidade de um CAPS. Não deixei de observar, durante a visita, que o ambiente é muito limpo, com paredes bem pintadas e decoradas, além de profissionais qualificados à disposição das pessoas que necessitam de cuidado. Trata-se de um local que cuida da saúde mental.
Ao final, sinto-me alegre por isso, por poder construir um pequeno artigo que ajuda a desconstruir a ideia que se tem a respeito de um CAPS AD III. Sinto-me alegre também porque revela um pouco sobre o trabalho tão importante dessas pessoas que, todos os dias, constroem aquilo que é o CAPS AD III. Se ele não existisse, sem dúvida, a vida seria muito mais difícil para todos nós.
Abraços a todos e até minha próxima coluna.
*Professor Pesquisador em Chapecó, SC. E-mail [email protected].






