
Havia uma época em que ir à biblioteca, fosse ela escolar ou pública, causava medo. Para o menino Narciso, andar no meio das altas estantes de livros da biblioteca da escola pública estadual que estudava, apenas olhar para aqueles livros que ficavam no alto das estantes, causava um pânico e um distanciamento. Ao caminhar pelos corredores, ele se sentia muito distante e ao olhar para cima, sentia que nunca alcançaria os conhecimentos que haviam naqueles enormes livros de capa dura vermelho, azul e alguns cinza. Estavam lá, imponentes com filetes dourados na capa e muitos deles com capa de couro. Nunca ninguém lhe dizia que poderia ler aqueles livros.
Mais tarde, já adulto, escrevendo e pesquisando numa biblioteca, vinha-lhe em forma de flashes, cenas desse período em que tinha seu primeiro contato com livros de uma biblioteca. Lembrava desse passado, e se perguntava se essas coisas haviam acontecido porque aquelas pessoas que cuidavam da biblioteca não conheciam ou conheciam pelo menos uma parte do que tratava aquelas obras clássicas. Lembrou que na época ouvia a bibliotecária dizer a velha frase de que “os livros dessas prateleiras não são para vocês. Você não pode ler esses livros”. Ele pensava e reconhecia que até gostaria de pegar um deles, que ficavam bem arrumados nas prateleiras, alguns bem no alto brilhando e convidando para que alguém o pegasse e pelo menos olhasse a capa. Já estaria de bom tamanho somente olhar a capa, pois esta era por si só um espetáculo.
Mas não. Sempre havia uma bibliotecária carrancuda, enorme, pois quando se é pequeno tudo fica acima de seus olhos, tudo é grande e assustador. Quando entrava na biblioteca sentia um certo prazer a começar pelo cheiro de livros e dos móveis para fazer pesquisa. Ele lembrava que as mesas eram enormes, todas de uma lata que quando se batia com a mão nela, fazia um barulho que lembrava estar dentro de um tonel. Chegava animado e esperava ali encontrar uma leitura que o tirasse desse mundo, pois para Narciso, o mundo era cruel e pesava sobre sua cabeça todos os dias. Porém, ao chegar ali se deparava com a bibliotecária que com um olhar gélido, logo afastava qualquer possibilidade de sentir desejo de ler algo daquela rica biblioteca. Mais que rapidamente tratava de dizer novamente, para que ficasse longe daqueles livros.
Assim lá ia ele para a outra parte da biblioteca onde estavam os livros da coleção vaga-lume. Foi ali que ele leu O Mistério do Cinco Estrelas e tomou encanto por alguns livros dessa coleção como A Ilha Perdida. Mas não deixava de na saída dar novamente uma espiada naquela seção que ele pensava ser inalcançável e pensava que “quantos livros fantásticos haveriam por ali pensava o menino, abrigando dentro de si ninguém mais ninguém menos do que Galilei Galileu, o pai da ciência moderna, Maquiavel, o pai da ciência política, Lavoisier o pai da química, Aristóteles precursor das ideias cristãs, todos esses e mais uma centena deles ali adormecidos, num ambiente lúgubre, escuro, onde haviam lâmpadas fluorescentes emitindo um som que parecia que estava saindo radiação delas, pois era um ronco constante.
Qualquer tentativa de um aluno que ali fosse pegar um livro daqueles que não eram permitidos, era considerado quase uma heresia, ou seja, era praticamente um pecado e Narciso, tendo o medo internalizado de tantos “nãos” que recebia, nem se arriscava a perguntar. Haviam é claro aqueles relacionados a ciência que os alunos usavam, eram as enciclopédias. Ali todo o conhecimento já vinha sistematizado de forma mecânica, absoluta e sem espaço a questionamentos e reflexão. Pensava ele, que, ler uma daquelas enciclopédias daquela época, anos 70 e 80, nos dias atuais, seria o mesmo que ler um livro didático daquele período. Mas elas tiveram sua importância no seu tempo. Ainda seguem sendo importantes pois servem para muitas pesquisas sobre como o conhecimento produzido pela humanidade se apresentava aos leitores em cada tempo.
Mas as obras clássicas como de Jean Jacques Russeau, Montesquieu, Hobbes e Locke, que ficavam nas ditas prateleiras proibidas, estavam lá. Hoje ele se pergunta: “se caso eu tivesse lido pelo menos um pouco de Russeau, se eu já não teria conhecido muita coisa da organização social, política e econômica do mundo que me cercava? ” e ao mesmo tempo imaginava como a vida teria sido melhor e mais livre se ainda quando era um préadolescente tivesse tido acesso ao conhecimento daqueles livros?
Nos dias atuais ele já sabia que esses livros sempre foram lidos e seguidos à risca pelos grandes estadistas e líderes mundiais ou por quem os assessorava, pois, os autores clássicos que criaram aqueles conhecimentos contidos naqueles livros, foram responsáveis pela formação do pensamento do Movimento do Iluminismo que criou a organização científica da sociedade se organizar economicamente e politicamente, ou seja, o Liberalismo que hoje em dia organiza a nossa vida, tanto na economia quanto na política, fazendo parte da nossa vida no dia a dia.
Além disso, o que os escritores daqueles livros fizeram, foi escrever obras que hoje são usadas para a criação das leis que governam nossa vida. O que eles escreveram norteou a maioria dos livros de leis dos países centrais do capitalismo, como os EUA, França, Inglaterra, por exemplo. Nas primeiras páginas do livro clássico de Jean Jacques Russeau, Do Contrato Social, já é possível compreender por exemplo, o pensamento político e econômico norte-americano nos dias atuais.
Ele gostava de criar, ler, escrever, mas não havia o menor incentivo para isso. Pelo contrário, lembrava que esse gosto lhe trazia alguns dissabores na escola. Sofria o que hoje chamam de bulling. Se dizia que menino precisava era carpir, buscar água no poço, jogar bola, tomar banho no rio, engraxar sapato, vender picolé com carrinho ou caixa de isopor e até buscar lenha na serraria que ficava a uns dois quilômetros de casa.
É claro que para uma criança ou pré-adolescente que não era de família com posses, fazer essas coisas se tornavam mesmo necessário. Seu pai dizia para ele e seu irmão buscar lenha, pois a sua tia que cuidava dos dois já era mais velha e tinha dor nas costas e outros problemas de saúde e não poderia trazer um saco de lenha nas costas.
A lenha era o que sobrava da serraria, mas quem acabava buscando mesmo, era a tia deles, que voltava com um enorme saco de pedaços de madeira, enquanto eles ficavam brincando dentro de casa e olhando a tia com um saco nas costas apontar ao longe na estrada de chão poeirenta. Ela voltava curvada devido ao peso. A lenha era para o fogão a lenha, pois a comida era feita ali. Hoje, ele nem gosta de pensar e imaginar, quantas pessoas iguais a sua tia, sofreram tanto também fazendo coisas semelhantes para manter uma família de pé. Não poderia deixar de pensar que muitas e muitas passaram por privações e que hoje muitas e muitos são esquecidos.
E para finalizar a sua escrita sobre quando era pré-adolescente e gostaria de ter lido muitos livros que não eram permitidos, fechou o caderno naquela tarde, quando visitou a biblioteca e escreveu os detalhes do momento quando teve os primeiros contatos com alguns livros na biblioteca escolar. Pegou suas coisas no armário na saída da biblioteca, se despediu das pessoas na portaria e se pôs a andar pelo calçadão. Ali ainda pôde olhar para o rosto de algumas pessoas que passavam por ele e perceber que os sonhos ainda permanecem em muitas, mas o rosto tristonho, cansado, desiludido é aquele que interage com a realidade.
Abraços a todos e até minha próxima coluna.
Professor Pesquisador em Chapecó e membro da ACHE Associação Chapecoense de Escritores
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