sexta-feira, março 13, 2026
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HIV: Estudo mostra resistência de mutação a remédio usado no Brasil

Pesquisa foi realizada pela UFSCar e Portugal

Informações Agência Brasil

Foto: Vinicius Marinho / Fiocruz

Estudo realizado em parceria entre Brasil e Portugal analisou mais de 20 mil sequências genéticas de HIV de pacientes brasileiros e constatou o aumento de uma mutação específica chamada K65R. Os pesquisadores alertam que isso é preocupante porque a mutação está associada à resistência a um dos medicamentos usados no tratamento antirretroviral no país, o Tenofovir (TDF).

“É o medicamento de primeira linha para começar o tratamento padrão do HIV em pessoas virgens para o tratamento no Brasil”, aponta Bernardino Geraldo Alves Souto, professor do Departamento de Medicina da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), que participou da pesquisa.

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Foram coletadas amostras em pacientes em tratamento antirretroviral, no período entre 2008 e 2017, no Brasil. A pesquisa, coordenada por Nuno Miguel Sampaio Osório, da Universidade do Minho, em Portugal, mostra que a prevalência da K65R era de 2,23%, em 2008, e chegou a 12,11% em 2017.

“Esse tratamento que o Brasil está adotando como padrão para começar a tratar as pessoas já tem 12% de resistência, então vamos precisar rever isso”, indica Souto.

O estudo também mostrou maior carga viral nas pessoas em que a mutação foi encontrada, o que reforça a observação da elevação da prevalência de resistência ao TDF.

No período estudado, houve mudança nos protocolos antirretrovirais no Brasil, substituindo o Zidovudina pelo Tenofovir, o que pode ter contribuído para a prevalência da mutação. Os pesquisadores apontam que esses aspectos podem explicar a maior proporção de casos de falência terapêutica, especialmente em um cenário de aumento dos números de novas infecções e mortes relacionadas ao vírus HIV, enquanto há queda no mundo. Foram 48 mil novas infecções, em 2019, e 14 mil mortes registradas no país.

Para impedir que isso ocorra, os pesquisadores defendem a genotipagem universal, em que todos os casos diagnosticados são avaliados geneticamente para definir o melhor tratamento. Atualmente, em geral, a genotipagem só é feita após verificação de falha terapêutica por seis meses. Em apenas alguns casos é feita previamente: “se for mulher grávida, se for uma pessoa que é parceira sexual de alguém que já faz tratamento há muito tempo, se for pessoa com tuberculose”, elenca o pesquisador.

O trabalho analisou ainda respostas imunológicas ao HIV. As análises sugerem que a presença da mutação K65R pode contribuir para o controle imunológico do vírus em indivíduos portadores do perfil genético HLA-B27. Isso poderia diminuir a transmissão do vírus em populações com alta prevalência deste HLA. No Brasil, no entanto, a prevalência desse perfil é baixa.

Também há indícios de que este HLA pode colaborar para evitar a mutação K65R que confere resistência ao Tenofovir. Isso pode ter contribuído para a expansão dessa mutação no Brasil.

“É mais uma razão para que a gente já comece o tratamento com coquetéis de alta eficácia, e eu vou identificar esses coquetéis através da genotipagem do HIV que a pessoa tem”, explica o pesquisador.

Como funciona o vírus

Souto explica que a mutação K65R preocupa especialmente por ser resistente ao TDF, mas existem várias outras mudanças genéticas do vírus HIV.

“É o mecanismo adaptativo do vírus, então geralmente o que acontece: a gente dá o medicamento e alguns filhotes do vírus, no processo de reprodução viral, eles produzem algumas mutações genéticas que conferem ao vírus capacidade de resistir ao efeito do medicamento”, explica.

Ao fazer genotipagem, é possível definir um coquetel que impeça a reprodução do vírus e evite a mutação.

“Eu já escolho um coquetel que consegue driblar essas mutações e atacar o vírus. Se eu não tenho essa informação, eu dou um coquetel e se o vírus já é resistente, ele não vai ser eficaz, a pessoa não vai se beneficiar do tratamento e ainda vai transmitir o vírus resistente”, aponta o pesquisador brasileiro.

Souto avalia que há infraestrutura para realização da genotipagem do HIV, mas que o maior problema seria a logística.

“Do ponto de vista de laboratório e de outras coisas, nós temos isso em quantidade suficiente, o que precisamos é traçar uma estratégia logística que garanta que todas as pessoas que precisarem desse exame tenham acesso ao resultado do exame em curto prazo”, aponta. 

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