
O jornalismo da Condá FM recebeu na segunda-feira (9) uma planilha, solicitada pelo Colegiado de Secretários de Saúde do Consórcio CIS-Amosc à Associação Lenoir Vargas Ferreria (ALVF), gestora do Hospital Regional do Oeste (HRO), em Chapecó, em que são demonstrados os atendimentos realizados pelo hospital nos últimos três anos.
Os números mostram um aumento da participação de Chapecó no total de internações oriundas do Pronto Socorro, chegando próximo de 60% do total. Para fontes que solicitaram sigilo à reportagem, os números demonstram um descaso com a saúde pública municipal, em função da Prefeitura não ter constituído um hospital próprio após a falência do Hospital Santo Antônio, em 1993, e a posterior compra da massa falida pela Unimed Chapecó em 1996, para construção do seu hospital.
Para a Prefeitura de Chapecó, a situação pode ser contornada com os atuais investimentos que estão sendo realizados, com novos postos de saúde e os Centros Integrados que irão operar na Grande Efapi e na Vila Militar, entre o Centro e o bairro Passo dos Fortes. Para o Governo do Estado, os investimentos realizados no último ano desenham uma nova realidade para o HRO, que no futuro próximo poderia atender de forma adequada tanto questões de baixa e média complexidade, quanto de alta.
As reiteradas reclamações da comunidade quanto ao Pronto-Socorro do HRO, que está em reforma; a dificuldade financeira pela qual o hospital ainda passa, e as decepções do passado, mostram a necessidade de entender os números para além do aumento geral nos atendimentos. A pergunta que fizemos a todos os citados acima foi: por que Chapecó está demandando tanto do HRO, e o que pode ser feito para que a essência regional do hospital volte a ser uma realidade?

Os dados
Conforme a planilha da ALVF, de 2023 a 2025, o crescimento no número total de internações do HRO foi de 11,5%, passando de 23.556 para 26.269 procedimentos. Destas internações, 85% foram realizadas via SUS. Se levarmos em conta apenas pacientes de Chapecó, em 2023, 54,4% das internações realizadas no Hospital Regional foram de chapecoenses. Em 2025, essa participação subiu para 58,7%, o que representa 15.414 internações de moradores de Chapecó no hospital.
No mesmo período, o crescimento no número total de internações do HRO vindas de casos atendidos no Pronto-Socorro foi de 19%, passando de 11.495 para 13.685 procedimentos. Ou seja, metade das internações do Hospital Regional são causadas por acidentes de trânsito e de trabalho, crimes, partos de emergência, e outras causas comuns da rotina de um Pronto-Socorro.
Se levarmos em conta apenas pacientes de Chapecó, em 2023, 65% das internações realizadas no HRO via Pronto-Socorro foram de chapecoenses. Em 2025, essa participação subiu para 66,8% representando 9.144 internações de moradores de Chapecó, e 59,3% do total de internações de chapecoenses no HRO em 2025.
De 2023 a 2025, o número total de atendimentos no Pronto-Socorro do HRO caiu 2,9%, passando de 50.268 para 48.826 procedimentos. Destes atendimentos, 98% foram realizados via SUS. Se levarmos em conta apenas pacientes de Chapecó, em 2023, 80,7% das internações realizadas no Hospital Regional foram de chapecoenses. Em 2025, essa participação baixou para 79,3%, totalizando 37.898 atendimentos de moradores de Chapecó.
Denúncia sigilosa
Fontes contataram o jornalismo da Condá horas após o recebimento destes dados. Em reunião presencial, e com anotações feitas à caneta, estas pessoas realizam uma denúncia com diversos apontamentos sobre a situação atual do HRO, e a postura da Prefeitura de Chapecó e do Governo de Santa Catarina:
- De acordo com as fontes, a Prefeitura de Chapecó não colocou um real do caixa próprio no HRO desde 2019. Todo o valor injetado é composto de repasses, principalmente de fundos federais e doações via declaração do Imposto de Renda de pessoas físicas e empresas.
- O HRO não foi concebido para atender casos de baixa e média complexidade de pacientes de Chapecó. Para as fontes, a solução seria a construção de um hospital municipal com 200 leitos e Pronto-Socorro de livre demanda, assim como é o do Hospital Regional. As fontes estimam que o custo de manutenção de um hospital deste porte para o Município ficaria entre R$ 6 e R$ 8 milhões por mês, e de que metade da demanda do Pronto-Socorro do HRO seria repassado ao hospital municipal com esta iniciativa.
- As Unidades de Pronto Atendimento (UPAs), por padrão nacional, não internam ninguém por mais de 24 horas, pressionando o fluxo de pacientes no HRO.
- Conforme as fontes, o valor do caixa do Governo de Santa Catarina que é repassado ao HRO para custeio gira em torno dos R$ 4 milhões ao mês, quando deveria estar na casa dos R$ 6,4 milhões para garantir a saúde financeira do hospital. As fontes estimam em R$ 2 milhões mensais os valores aportados por convênios e planos de saúde privados, além da contribuição espontânea da comunidade regional e de parlamentares, por meio de emendas.
- A ALVF já propôs à Prefeitura de Chapecó que, além de construir um hospital municipal, inicie um aporte mensal com valores arrecadados dos impostos municipais para o HRO, a exemplo do que fazem diversas prefeituras da região, inclusive cidades que possuem hospitais municipais, a exemplo de Xaxim, São Carlos e Maravilha.
- As fontes afirmam que a ALVF possui um crédito por mais de R$ 9 milhões com a Prefeitura de Chapecó, pelo prejuízo acumulado durante o período em que geriu o Hospital da Criança de Chapecó, agora administrado pelo Governo do Estado. Conforme as fontes, a Administração Municipal está negando o pagamento do crédito. Não há informações se a cobrança foi judicializada. (não foi judicializada).
- A obra de ampliação do Pronto-Socorro do HRO começou com recursos próprios da ALVF, depois da necessidade de obras complementares anteriores permitirem a reforma e ampliação do espaço. Tudo isso, alinhado à falta do projeto para a reforma, atrasou o início da obra. Doações de Lions Clubes, do Rotary e empréstimos contraídos pela ALVF permitiram a execução das obras complementares.
- O seguro não cobriu a quebra da peça da máquina de ressonância magnética do HRO, no valor de R$ 900 mil. A ALVF já comprou o novo equipamento, que é importado da Siemens, além de pagar com recursos próprios uma nova peça para o antigo equipamento. A associação tenta recorrer da decisão do seguro.
- Conforme as fontes, faltam enfermeiros e técnicos de enfermagem no mercado para a abertura de 10 novos leitos de UTI adulto, cujo dinheiro já foi pago pelo Governo do Estado.
O que diz a Prefeitura de Chapecó
Em nota, a Prefeitura de Chapecó afirma que está investindo R$ 52,8 milhões em infraestrutura para ampliar a rede de saúde municipal. As obras incluem novos postos de saúde, a ampliação do Centro de Atenção Psicossocial para Álcool e Drogas (CAPS 3) e do Centro de Reabilitação, a nova UPA da Grande Efapi e os Centros Integrados de Saúde.
Quando questionado pela reportagem quanto ao protocolo de atendimento nas UPAs para transferência de pacientes ao HRO, a Prefeitura afirmou que, em Santa Catarina, o encaminhamento de pacientes das UPAs para os Prontos-Socorros hospitalares segue o Protocolo Catarinense de Acolhimento com Classificação de Risco: “Esse sistema organiza o fluxo assistencial com base na gravidade clínica, garantindo que casos complexos cheguem ao hospital de referência correto por meio da regulação estadual”.
De acordo com a Prefeitura, todo paciente que chega à UPA passa por uma triagem imediata baseada em cores para definir a prioridade de atendimento e a necessidade de transferência, seguindo a Classificação de Manchester: “A UPA é responsável por prestar o primeiro atendimento, estabilizar o paciente em situações críticas, como infarto ou trauma, e realizar a avaliação diagnóstica inicial antes de solicitar a transferência”.
Conforme a Administração Municipal, quando o paciente necessita de internação ou procedimentos de maior complexidade, a UPA insere a solicitação no sistema da Central Estadual de Regulação: “A regulação avalia a gravidade e identifica a vaga no hospital de referência mais adequado”. No caso de Chapecó, quase sempre a Central de Regulação irá apontar o Hospital Regional como destino do paciente.
Quando o assunto foram os repasses que a Prefeitura de Chapecó faz ao HRO, a Administração Municipal pontuou que há recursos que saem do caixa municipal ao hospital, mas que compõem apenas uma pequena fatia do total repassado. Para ser mais exato, são R$ 218 mil que, em 2025, foram transferidos dos impostos municipais para o Hospital Regional, via Fundo de Assistência do Servidor Público Municipal. O restante dos R$ 6,7 milhões entregues em total pela Prefeitura de Chapecó são recursos que chegam de outras fontes.
O que diz o Governo do Estado
O secretário de Estado da Saúde do Governo de Santa Catarina, Diogo Demarchi, atendeu o jornalismo da Condá para responder aos questionamentos desta reportagem. Ele relembrou que a Secretaria de Estado da Saúde assumiu em maio de 2024 o contrato do Hospital Regional: “Anteriormente era um contrato com a Prefeitura, e por determinação do governador Jorginho Mello, nós assumimos o contrato e a gestão do hospital”.
Desde então, Diogo afirma que a Secretaria de Estado vem dialogando com a ALVF, bem como com todos os secretários da região, para aumentar a capacidade de atendimento e melhorar tanto a estrutura do hospital quanto ampliar os serviços prestados na unidade: “Atualmente, o contrato do HRO com a Secretaria de Estado é no valor de R$ 14,4 milhões mensais repassados em contrato, fora recursos extras que podem ser aportados”, afirmou o secretário, contrariando a denúncia das fontes sigilosas.
Do ponto de vista de investimento, a Secretaria de Estado da Saúde afirma estar investindo para ampliar e renovar a estrutura do parque tecnológico do Hospital Regional: “Compramos uma nova máquina de ressonância magnética. O Estado pagou para a entidade R$ 4,5 milhões. Temos a previsão agora de, no primeiro semestre de 2026, trocar o aparelho de ressonância da unidade”, afirma Demarchi.
Diogo pontua que a Secretaria fez um convênio de R$ 3,6 milhões para a troca de toda a cobertura do HRO, que desde a sua inauguração em 1986 não passava por essa atualização: “A depender do que acontece com a temperatura, com chuvas, enfim, pode dar problema nas estruturas do hospital internamente”.
Demarchi afirma que “todos podem conferir o ritmo da obra” do Pronto-Socorro: “Fizemos um aporte de mais de R$ 5 milhões, e a ALVF também aportou recursos próprios para a consecução dessa obra, que está avançando. A gente espera entregar a primeira fase no próximo mês”.
Diogo confirma que houve a destinação de R$ 2,4 milhões para a compra de maquinário a fim de abrir 10 leitos de UTI adulto: “O valor nós pagamos no final de 2025. A ALVF está fazendo a aquisição dos equipamentos e tratando da contratação de pessoal”. O secretário afirma que desde 2023, no governo Jorginho Mello, foram abertos 10 leitos de UTI adulto e cinco leitos de UTI pediátrica: “Nós só tínhamos cinco leitos em todo o Grande Oeste, passamos de cinco para 10 no HRO. E temos, obviamente, no Hospital da Criança, a previsão de também ter leitos de UTI pediátrica naquela unidade”.
Demarchi declara que, recentemente, foi realizada a liberação para compra de uma máquina de Raio-X móvel, macas de transporte, e sistema de drill para a ala de neurocirurgia no HRO, pelo valor de R$ 800 mil: “Cada vez mais o hospital vem atendendo mais pessoas, obviamente a população cresce, o atendimento cresce. Estamos trabalhando também na habilitação de novos serviços, a gente vai avançar em outras subespecialidades na neurocirurgia. Vamos agora iniciar também o atendimento de cirurgia torácica, depois de concluir a habilitação do serviço de alta complexidade em cardiologia, e dessa maneira que a gente trabalha, olhando no curto, médio e longo prazo”, conclui o secretário de Estado.





