
Desde as primeiras notícias sobre a Venezuela, tenho dito que é muito precoce traçar alguma consideração e/ou avaliação precisa sobre o ocorrido. Até porque, existem várias ópticas para analisar a ação dos Estados Unidos em território venezuelano.
Aqui, irei apontar, as diversas análises possíveis, começando pela de menor credibilidade, que é a visão ideológica.
Para tanto, citarei Sergio Ramírez, que em 2018, em comemoração aos 20 anos do prêmio Nobel de literatura de José Saramago, escreveu “(…) Quanta falta nos faz o Sr. José neste mundo de pernas para o ar, onde o diabo do fascismo anda novamente passeando sob tantos e diversos disfarces. Disfarça-se de lobo manso, disfarça-se de lobo generoso, ou seja, de lobo populista, e até se disfarça, não poucas vezes, com roupagem de esquerda, mas não há maneira de que esconda o rabo peludo, nem as unhas e garras, nem que possa dissimular o cheiro de enxofre que deixa quando passa.(…)”. Portanto, qualquer manifestação sobre o assunto, sem fundamento, onde até dias atrás questionavam e boicotavam chinelos ou se defende a sobretaxação como uma solução simples para problemas econômicos complexos, é demonizada de uma ideologia extremista, tão simplesmente.
Haverá, neste prado, também uma avaliação política, e está, especialmente, no cenário pré-eleitoral brasileiro, também possui supedâneo pouco crível, pois neste palanque, todos os discursos terão baldrame meramente eleitoreiro, tudo para falar tão simplesmente à eleitores rasos, e, novamente, resumida na dicotomia de direita e esquerda, onde cada um com seu “cercadinho”, preocupam-se, unicamente, com a captação de votos. Não bastasse isso, nesse critério de análise, é o que sofre a maior interferência, portanto, das questões ideológicas supra, ou seja, salvo raríssimos discursos, todo restante, são inconfiáveis.
As próximas áreas de observação sobre a questão envolvendo os Estados Unidos e Venezuela, são mais confiáveis, pois já são sustentadas por fundamentos e critérios até mesmo científicos (mas que no senso comum, são de pouca valia), mas, pela gravidade e consequências futuras, não podem ser desconsideradas.
Se há uma questão de gravidade a ser considerada, está, na minha opinião, é melhor analisada pelas Relações Internacionais, pois, houve temerário comprometimento das questões de Direito Internacional, dos princípios do multilateralismo e que se abrem precedentes periclitantes, não só para a América Latina, mas para todo o mundo, que já acompanha conflitos motivados por uma lógica imperialista. Aqui, destaco três manifestações de Trump na coletiva dada à imprensa, na data de ontem. Primeiro, o subjetivismo do conceito de Inimigo, quando ele alertou aos seus inimigos sobre o poderio dos EUA, ou seja, quais são os critérios para o Presidente Americano definir quem é seu amigo ou inimigo? Segundo, é a explícita intensão nas reservas de energia e minerais, quando anunciou que irão administrar a Venezuela, até haver uma transição, entregando o país, à governantes que permitam a exploração do petróleo pelos Estados Unidos, justificando, inclusive, que esse seria o lastro para custear essa gestão e a prometida reconstrução. E a terceira, é exatamente, quem os EUA realmente querem governando a Venezuela? Ontem também, já disse que Maria Corina não teria a confiança da população. Pergunto, então? E Edmundo González, para Trump, também não tem a mesma confiabilidade? Penso que estes são os dois nomes para liderarem a transição e estarem a frente da Venezuela, nessa reconstrução, mas aí surge outro questionamento? Eles irão permitir a ingerência e exploração dos Estados Unidos na Venezuela?
Já na esfera econômica, essa, traço minhas considerações sobre os reflexos do futuro da Venezuela, no setor produtivo brasileiro; atualmente, cerca de 300 mil venezuelanos vivem no Brasil, segundo o CENSO de 2022. É diáfano que essa população de refugiados, representam uma considerável parcela da mão de obra em diferentes áreas. Aqui na região Oeste, a agroindústria, o comércio, construção civil, enfim, todas as atividades, dependem desses trabalhadores. Não é de hoje, que eu já vinha alertando que na hipótese de mudança de governo na Venezuela, e, de garantia de melhores condições, grande parte dos quase 8 milhões de venezuelanos que abandonaram o país, regressariam, e irão regressar. O alento, que isso não vai ocorrer de forma imediata, mas irão, e quando forem, deixaram no Brasil um vácuo na força de trabalho, que já é e sempre foi o maior gargalo. Teremos aqui, então, uma crise para administrar, cuja solução precisamos cobrar do nosso setor político, que neste ano eleitoral, precisa já desenvolver projetos para suprir esse problema futuro.
Na derradeira seara de análise da situação da Venezuela, faço, não por demérito, mas para destacar que é a única possível de se aceitar uma ação militar ilegítima, mas que se fazia necessário. A questão Humanitária, dá azo para aceitar que uma nação estrangeira, capture um ditador, pois é inaceitável que um país que possui a maior reserva de petróleo mundial, seja assolado pela miséria, fome, violência e uma hiperinflação, sustentada por uma gestão militarizada e ditatorial.
O momento, no entanto, é de alerta, é de zelo, é preciso ainda ficarmos atentos pelos próximos passos, muito ainda esta por acontecer na Venezuela, não só em território venezuelano, mas também, aos Norte Americanos, lá, a luz amarela, permanecerá acesa, pois os dois maiores aliados de Maduro, Rússia e China, são uma incógnita, e, os malfadados precedentes da ação militar dos EUA deixados ontem, colocam muito mais em risco a paz mundial, do que à promove.






