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Quinta da Opinião: Na política, ninguém trai sozinho: as regras invisíveis do jogo eleitoral 

Leia a coluna do Dr. Luís C. Pacheco Júnior na Quinta da Opinião

Foto: Luís C. Pacheco Júnior

Na política brasileira, uma fotografia pode envelhecer antes mesmo de ser publicada. 

Dois adversários aparecem sorrindo, anunciam uma aliança e prometem caminhar juntos. Meses depois, estão em palanques opostos. Um partido declara apoio a determinado candidato, enquanto algumas de suas principais lideranças trabalham em outra direção. Quem ontem era tratado como indispensável passa a ser considerado um obstáculo. 

A reação costuma ser imediata: traição, oportunismo, incoerência. 

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Mas existe uma pergunta que raramente aparece nesse debate: o que mudou para que uma aliança antes vantajosa deixasse de fazer sentido? 

Essa pergunta nos aproxima da Teoria dos Jogos, campo de estudo associado à matemática e à economia que procura compreender decisões tomadas quando o resultado de cada participante depende também das escolhas dos demais. 

É uma ferramenta particularmente interessante para interpretar a política brasileira, sobretudo em períodos eleitorais, quando alianças, candidaturas, apoios e rompimentos passam a ocorrer em velocidade crescente. 

E há uma razão para isso: na política, ninguém decide sozinho, mesmo quando parece estar agindo individualmente. 

A aliança não precisa de amizade 

Imagine dois partidos que disputaram eleições anteriores em lados opostos. Seus dirigentes trocaram críticas públicas, divergiram sobre políticas econômicas e construíram identidades políticas distintas. 

Agora, diante de uma nova eleição, anunciam uma aliança. 

Seria uma contradição? 

Depende. 

Se ambos identificam vantagens na cooperação, a aliança pode representar uma escolha racional, ainda que suas divergências permaneçam. 

Um partido pode oferecer estrutura regional, tempo de propaganda e capilaridade eleitoral. O outro pode apresentar um candidato competitivo, capacidade de mobilização e melhores perspectivas de participação no governo. 

Separadamente, ambos enfrentariam dificuldades maiores. Juntos, acreditam aumentar suas possibilidades de alcançar determinados objetivos. 

Na Teoria dos Jogos, essa situação pode ser examinada como um problema de cooperação e formação de coalizões. 

O ponto central é que a estabilidade da aliança não depende necessariamente da proximidade pessoal entre seus integrantes. Depende da percepção de que permanecer juntos continua sendo vantajoso. 

Isso ajuda a compreender uma característica recorrente da política brasileira: adversários em uma eleição podem se tornar aliados na seguinte, assim como antigos parceiros podem passar a disputar o mesmo eleitorado. 

O eleitor costuma observar a mudança pela perspectiva da coerência ideológica. Os dirigentes também consideram a distribuição de recursos, os riscos eleitorais, a sobrevivência partidária e as perspectivas futuras. 

Essas dimensões não tornam irrelevantes os compromissos programáticos. Apenas mostram que eles não são os únicos elementos presentes na decisão. 

O primeiro a se mover também assume o primeiro risco 

Há outro aspecto interessante nas articulações políticas: o momento escolhido para anunciar uma decisão. 

Declarar apoio antecipado a um candidato pode produzir vantagens. O aliado que chega primeiro tende a demonstrar comprometimento e pode conquistar maior influência na construção da campanha. 

Mas também assume riscos. 

Se o candidato apoiado perder força, o partido terá menos alternativas disponíveis. Se surgir uma candidatura mais competitiva, mudar de posição poderá gerar custos reputacionais. Se outros aliados chegarem posteriormente com maior capacidade eleitoral, o apoio antecipado talvez não produza a influência esperada. 

Por isso, algumas lideranças preferem aguardar. 

Na linguagem estratégica, esperar pode representar a preservação de opções. 

Entretanto, essa escolha também tem um preço: quem demora demais pode descobrir que os principais espaços de negociação já foram ocupados. 

Surge, então, um jogo de movimentos sucessivos. 

Cada participante observa o comportamento dos demais antes de revelar integralmente sua própria estratégia. 

Uma reunião reservada, uma declaração ambígua, uma ausência em determinado evento ou uma fotografia ao lado de outro candidato podem funcionar como sinais. 

Mas sinais não são necessariamente compromissos. 

E aqui está uma distinção importante: o que um político declara publicamente não revela, por si só, todas as alternativas que ele considera. 

Isso não autoriza afirmar que toda declaração esconde uma intenção diferente. Significa apenas que, em ambientes estratégicos, a comunicação também influencia o comportamento dos outros participantes. 

O que chamamos de traição 

Talvez nenhuma palavra seja tão utilizada para explicar rupturas políticas quanto “traição”. 

Ela possui força emocional porque pressupõe a existência de um compromisso anterior. 

O problema é que nem sempre distinguimos compromisso de expectativa. 

Um dirigente pode esperar apoio porque ajudou outro político no passado. Um partido pode considerar natural receber reciprocidade por uma aliança anterior. Um governador pode acreditar que determinada liderança seguirá sua orientação. 

Mas uma expectativa, por mais compreensível que seja, não equivale necessariamente a um acordo. 

E mesmo os acordos precisam ser examinados à luz de seus incentivos. 

Considere uma situação hipotética: dois grupos políticos decidem apoiar uma candidatura comum. Enquanto ambos acreditam que a união aumenta suas chances de vitória, cooperam. 

Durante a campanha, porém, um dos grupos passa a acreditar que uma candidatura própria oferece melhores perspectivas. 

Nesse momento, a estrutura do jogo mudou. 

A ruptura pode representar descumprimento de um compromisso, cálculo eleitoral, divergência legítima ou uma combinação desses fatores. Para classificá-la adequadamente, precisamos conhecer os fatos e os compromissos efetivamente assumidos. 

A Teoria dos Jogos não transforma toda mudança de posição em comportamento justificável. 

Ela permite compreender por que determinados acordos se tornam frágeis. 

Uma promessa política será tanto mais confiável quanto maiores forem os custos de descumpri-la e mais relevantes forem os benefícios de mantê-la. 

Esse é o problema dos compromissos críveis. 

Acordos sustentados apenas por vantagens imediatas tendem a ficar vulneráveis quando essas vantagens desaparecem. Relações que envolvem reputação, reciprocidade e interesses de longo prazo podem apresentar maior estabilidade. 

O Brasil oferece um exemplo institucional 

A formação das alianças políticas brasileiras não acontece apenas por afinidade entre lideranças. 

Nosso sistema eleitoral estabelece regras que influenciam diretamente o comportamento dos partidos. 

A cláusula de desempenho, por exemplo, condiciona o acesso a determinados recursos partidários e ao tempo gratuito de rádio e televisão ao cumprimento de requisitos eleitorais. 

Isso altera os incentivos de legendas que precisam preservar sua relevância institucional. 

Federações partidárias, fusões e incorporações passam a integrar o conjunto de alternativas disponíveis. 

Uma federação, contudo, não é simplesmente uma coligação eleitoral com outro nome. Ela exige uma atuação conjunta mais duradoura, submetida às regras legais aplicáveis. 

Essa diferença importa porque modifica os custos de entrada e de saída da relação. 

Uma aliança circunstancial pode ser relativamente simples de encerrar. Um compromisso institucional duradouro impõe restrições adicionais aos participantes. 

É justamente esse o papel das regras em um jogo: modificar as possibilidades de escolha e suas consequências. 

Na política, como nas empresas, uma mudança nas regras pode produzir alterações de comportamento mesmo quando os participantes continuam sendo os mesmos. 

O jogo continua depois da eleição 

Outro erro frequente é analisar as alianças como se a eleição representasse o encerramento da disputa. 

Na realidade, ela apenas modifica sua natureza. 

Depois da votação, os partidos precisam negociar a formação de maiorias, a composição de governos, a aprovação de projetos, a distribuição de responsabilidades e a relação entre Executivo e Legislativo. 

Os mesmos atores voltarão a se encontrar inúmeras vezes. 

A Teoria dos Jogos denomina essas situações de jogos repetidos. 

Neles, uma decisão presente pode afetar negociações futuras. 

Uma liderança que descumpre sistematicamente seus compromissos pode perder credibilidade. Um partido que exige concessões excessivas pode encontrar resistência em acordos posteriores. Um governante que ignora aliados estratégicos pode comprometer a sustentação de sua agenda legislativa. 

Por outro lado, cooperar indiscriminadamente também pode gerar problemas. 

Se determinado participante percebe que os demais sempre cederão para evitar uma ruptura, poderá aumentar suas exigências. 

É por isso que a construção de alianças estáveis exige algo mais sofisticado do que a simples disposição para negociar. 

É necessário estabelecer limites, construir mecanismos de confiança e compreender o custo de cada concessão. 

Essa lógica ajuda a explicar por que a política brasileira frequentemente reúne partidos que competem entre si em determinados estados, mas cooperam em votações no Congresso Nacional. 

O comportamento pode parecer contraditório quando observado isoladamente. Torna-se mais compreensível quando consideramos que os participantes disputam diferentes jogos simultaneamente. 

Nem todo movimento é aquilo que parece 

Há ainda um cuidado indispensável para quem pretende interpretar as articulações políticas com seriedade. 

Nem sempre conhecemos as informações disponíveis aos participantes. 

Uma reunião pode indicar aproximação, mas não comprova um acordo. Uma ausência em evento pode representar distanciamento político ou simplesmente um conflito de agenda. Uma declaração pública pode expressar convicção, sinalizar uma preferência ou buscar influenciar negociações. 

Atribuir intenções ocultas a partir desses movimentos, sem evidências suficientes, é substituir análise por especulação. 

A Teoria dos Jogos trabalha com hipóteses sobre objetivos, incentivos, informações e alternativas. 

Essas hipóteses precisam ser confrontadas com fatos observáveis. 

Por isso, ao acompanhar o cenário eleitoral, considero mais produtivo perguntar quais opções estavam disponíveis, quais riscos cada escolha envolvia e como a decisão de um participante alterou as possibilidades dos demais. 

Essa abordagem não elimina o papel da ideologia, dos valores ou das convicções pessoais. 

Apenas reconhece que decisões políticas também são tomadas sob restrições, incertezas e relações de interdependência. 

Afinal, quem está jogando melhor? 

A resposta não é tão simples quanto identificar quem reuniu mais aliados ou produziu a fotografia mais expressiva. 

Uma coalizão numerosa pode apresentar dificuldades de coordenação. Uma aliança menor pode possuir maior unidade de objetivos. Um apoio relevante em determinada região pode ter pouco efeito em outra. 

Além disso, a estratégia que maximiza as chances de vitória eleitoral nem sempre é aquela que oferece melhores condições de governabilidade. 

É perfeitamente possível vencer uma disputa e sair dela com compromissos difíceis de administrar. 

Também é possível perder uma eleição e preservar capital político suficiente para influenciar decisões futuras. 

O resultado depende do objetivo que cada participante procura alcançar. 

E talvez seja justamente esse o aspecto mais revelador da Teoria dos Jogos aplicada à política: os jogadores podem participar da mesma disputa sem perseguir exatamente a mesma vitória. 

Para um candidato, vencer significa conquistar o cargo. Para um partido, pode significar ampliar sua bancada. Para uma liderança regional, preservar influência. Para outra, construir condições para uma eleição futura. 

Quando compreendemos essa diversidade de objetivos, algumas movimentações deixam de parecer tão inexplicáveis. 

Isso não significa que toda articulação seja legítima, nem que toda ruptura possa ser desculpada como estratégia. 

Compromissos públicos, responsabilidade institucional e coerência continuam sendo critérios fundamentais de avaliação. 

Mas, antes de classificar cada movimento como lealdade ou traição, talvez devêssemos fazer uma pergunta mais precisa: 

O que mudou nas regras, nos incentivos ou nas expectativas para que essa decisão passasse a fazer sentido? 

A política brasileira continuará produzindo alianças improváveis, rompimentos inesperados e movimentos difíceis de interpretar. 

A Teoria dos Jogos não permite prever com certeza o comportamento dos seus protagonistas. 

Mas oferece algo igualmente valioso: um método para compreender por que pessoas que disputam o poder dependem umas das outras e, frequentemente, precisam negociar com aqueles que ontem combatiam. 

No fim, entender a política exige olhar além dos jogadores. 

É preciso compreender o jogo.
—

Luís Carlos Pacheco Júnior é advogado (OAB/RS 107.940), desde 2017, com atuação nas áreas de Direito Empresarial e Responsabilidade Civil. Desenvolve trabalhos voltados à análise estratégica de conflitos, com ênfase em fraudes financeiras, responsabilidade de instituições e gestão de riscos jurídicos. Possui MBA Gestão, Empreendedorismo e Desenvolvimento de Negócios, pela PUCRS.

Instagram: @luiscarlospachecojunior
Linkedin: Luís Carlos Pacheco Júnior
Contato: (54) 99653-8624

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