sábado, agosto 1, 2026
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A eleição dentro do bolso: benefícios públicos, psicologia eleitoral e o desafio da oposição em 2026

Confira a coluna do professor Dr. Givanildo Silva

Prof. Givanildo Silva – Doutor em Ciências Contábeis e Administração.

A eleição presidencial brasileira de 2026 já está sendo disputada dentro da casa das famílias: na conta de energia, no preço do botijão de gás, no salário líquido, na parcela das dívidas e na possibilidade de financiar um veículo ou reformar a moradia. O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva chega ao período eleitoral apoiado em uma sequência de benefícios sociais, desonerações tributárias, liberações de recursos e programas de crédito. Críticos classificam esse conjunto como um “pacote de bondades”. O governo afirma que as medidas são legais e socialmente necessárias.

Não é possível afirmar, sem provas ou decisão da Justiça Eleitoral, que cada programa tenha sido criado exclusivamente para produzir votos. Porém, também seria ingênuo ignorar que o calendário de implantação, os públicos escolhidos e a intensa comunicação dos benefícios possuem efeitos eleitorais previsíveis. A questão central é como o dinheiro chega às pessoas, como é percebido e a quem o eleitor atribui o mérito.

Levantamentos jornalísticos recentes estimaram mais de R$ 180 bilhões em 16 iniciativas e, em outra metodologia, R$ 256,9 bilhões em 21 medidas com efeitos no ano eleitoral. Esses números não representam recursos retirados integralmente do Orçamento e entregues diretamente à população. Eles reúnem despesas públicas, renúncias tributárias, crédito reembolsável, garantias financeiras e liberações de recursos pertencentes aos trabalhadores, como o FGTS. Uma linha de financiamento de R$ 30 bilhões, por exemplo, não equivale a uma transferência social de mesmo valor.

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Ainda assim, a dimensão política do conjunto é expressiva. A ampliação da isenção do Imposto de Renda para quem recebe até R$ 5 mil por mês, com desconto parcial para rendas superiores, produz um efeito mensal e visível no contracheque. O trabalhador não recebe uma promessa abstrata: percebe aumento na renda disponível.

Outra frente procura alcançar categorias específicas. Há linhas para taxistas e motoristas de aplicativos, financiamento de caminhões e ônibus, crédito para máquinas agrícolas, modernização tecnológica no campo e apoio à indústria. Essas medidas podem aproximar o governo de grupos profissionais com forte capacidade de mobilização, mas carregam uma ambiguidade: crédito não é renda. Resolve uma dificuldade atual ao criar uma obrigação futura.

No campo do endividamento, consignado privado, renegociação de dívidas e uso de recursos do FGTS produzem alívio imediato. Para quem está pressionado por parcelas atrasadas, a redução da dívida ou a liberação de dinheiro tem grande valor prático. Contudo, parte desses recursos pertence ao próprio trabalhador, e os empréstimos deverão ser pagos. O impacto eleitoral dependerá de a pessoa perceber a medida como ajuda governamental, devolução de um direito ou simples substituição de uma dívida por outra.

A habitação constitui outro eixo relevante. Programas de crédito imobiliário, reforma residencial e ampliação do Minha Casa, Minha Vida mobilizam valores elevados e possuem forte apelo emocional. Casa própria significa segurança, patrimônio e progresso familiar. O limite está no tempo: entre anúncio, aprovação cadastral, contratação e obra, a experiência concreta pode demorar.

Entre as famílias de menor renda, benefícios como gás e energia subsidiados podem produzir efeito político maior do que grandes linhas de financiamento. São vantagens de fácil compreensão, recorrentes e percebidas no orçamento doméstico. Um programa bilionário para a indústria pode ser economicamente importante e eleitoralmente quase invisível. Uma conta de luz zerada ou um botijão gratuito custa menos, mas entra imediatamente na memória do beneficiário.

Por que essas medidas podem influenciar o voto? A ciência política e a psicologia oferecem respostas.

A primeira é a teoria do ciclo político-econômico, associada a William Nordhaus. Governantes possuem incentivos para antecipar benefícios, estimular renda, crédito ou atividade econômica antes da eleição, deixando parte dos custos para depois. A teoria não prova ilegalidade. Ela mostra que o calendário eleitoral modifica os incentivos de quem ocupa o poder.

A segunda é o voto retrospectivo, desenvolvido por autores como V. O. Key Jr. e Morris Fiorina. O eleitor não precisa compreender o Orçamento da União. Ele compara sua vida atual com o passado e recompensa ou pune o governante. Se o salário líquido aumentou, a dívida diminuiu ou a conta de energia caiu, esses fatos funcionam como indicadores simplificados de desempenho. Se alimentos, aluguel, juros e violência continuam elevados, os benefícios podem ser neutralizados.

A teoria da perspectiva, de Daniel Kahneman e Amos Tversky, acrescenta um elemento decisivo: as pessoas sentem perdas com mais intensidade do que ganhos equivalentes. Depois que uma família passa a receber energia gratuita, gás subsidiado ou isenção tributária, o benefício entra em seu padrão esperado de vida. A eleição pode então ser apresentada como uma escolha entre preservar uma conquista ou correr o risco de perdê-la.

A psicologia da escassez, estudada por Sendhil Mullainathan e Eldar Shafir, ajuda a explicar por que o ganho imediato pesa tanto. A falta de dinheiro ocupa atenção e reduz a capacidade de planejar o longo prazo. Para quem não consegue comprar gás, pagar a luz ou quitar uma parcela, o possível efeito fiscal em anos futuros é abstrato. Isso não significa irracionalidade; significa que necessidades concretas recebem prioridade sobre riscos distantes.

A norma da reciprocidade, formulada por Alvin Gouldner, também opera. Quem acredita ter sido ajudado pode desenvolver gratidão, confiança ou disposição favorável em relação ao governo. Essa reação não transforma automaticamente uma política pública em clientelismo. Programas baseados em regras gerais continuam sendo direitos, ainda que produzam reconhecimento eleitoral.

Paul Pierson oferece outra chave: a retroalimentação das políticas públicas. Depois de implantado, um programa altera expectativas e comportamentos. As famílias reorganizam o orçamento, empresas ajustam investimentos e governos locais criam estruturas de execução. A política deixa de ser apenas resultado da disputa e passa a influenciar eleições futuras. O beneficiário pode tornar-se defensor de sua continuidade.

A identidade social, trabalhada por Henri Tajfel e John Turner, explica o efeito de medidas dirigidas a caminhoneiros, agricultores, motoristas, trabalhadores formais ou famílias de baixa renda. Além do dinheiro, há uma mensagem de reconhecimento: “o governo enxerga pessoas como nós”. Mas o efeito pode ser inverso quando o grupo interpreta a iniciativa como oportunismo: “só se lembraram de nós porque haverá eleição”.

Nesse cenário, Flávio Bolsonaro enfrenta um desafio maior do que mobilizar a direita. Seu eleitorado conservador já existe. O problema é transformar identidade intensa em maioria nacional.

A primeira tarefa seria construir autoridade própria. A associação com Jair Bolsonaro garante reconhecimento e fidelidade, mas também transfere rejeições, controvérsias e medo de instabilidade. Flávio precisa combinar continuidade ideológica com competência pessoal, equipe qualificada, capacidade de negociação e plano de governo executável.

A segunda seria evitar que a liberdade econômica seja percebida como ameaça à proteção social. Se a oposição atacar os beneficiários ou prometer cortes vagos, ativará a aversão à perda e fortalecerá o governo. Uma alternativa competitiva precisaria explicar quais benefícios serão preservados, quais serão reformulados, como serão financiados e como as famílias poderão avançar da assistência para o emprego, a renda, a qualificação e o patrimônio.

A terceira tarefa seria traduzir liberdade econômica em vida cotidiana. Redução do Estado, equilíbrio fiscal, privatização e segurança jurídica são conceitos importantes, mas abstratos. O eleitor quer saber se os alimentos ficarão mais baratos, se haverá empregos melhores, se o crédito custará menos e se será possível empreender sem burocracia. O liberalismo só ganha força eleitoral quando se transforma em renda, oportunidade e mobilidade social.

A segurança pública é outra oportunidade. A direita possui maior associação com ordem e combate ao crime, mas precisa apresentar propostas compatíveis com as competências federais: Polícia Federal, fronteiras, lavagem de dinheiro, tráfico de armas, sistema penitenciário federal e integração de informações. Promessas impossíveis mobilizam a base, mas não demonstram capacidade de governo.

Também será necessário apresentar um conservadorismo positivo. Família, responsabilidade, liberdade religiosa, autoridade e pertencimento nacional podem formar uma proposta social ampla. Quando o conservadorismo é comunicado apenas como confronto, punição ou exclusão, consolida os já convencidos e aumenta a rejeição entre eleitores moderados.

Por fim, Flávio precisará demonstrar governabilidade e respeito institucional. Um presidente depende de maioria no Congresso, relação com governadores e previsibilidade jurídica. O eleitor pode concordar com suas ideias e ainda rejeitá-lo se perceber risco de paralisia, conflito permanente ou desorganização.

A disputa de 2026 será, portanto, uma batalha entre memória e expectativa. Lula tentará mostrar que seu governo colocou renda, crédito, gás, energia e proteção dentro da casa das pessoas. Flávio tentará transformar a eleição em julgamento sobre custo de vida, segurança, liberdade econômica, integridade e futuro.

Se a pergunta dominante for “quem melhorou minha vida agora?”, o governo terá vantagem. Se for “quem oferece segurança, crescimento e sustentabilidade para os próximos quatro anos?”, a oposição encontrará espaço.

Os bilhões importam. Mas importa ainda mais o significado que cada eleitor atribuirá a eles.

Por Prof. Dr. Givanildo Silva

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