
O cientista político de Videira, Caleb Bentes, está colaborando em três edições da coluna, abordando as consequências da guerra entre Irã, Estados Unidos e Israel para o Brasil, com detalhamentos específicos para o Oeste Catarinense. Nesta última parte, vamos ver a opinião do cientista político sobre as repercussões práticas da guerra no Brasil.
Para Caleb, é altamente provável que o governo federal adote medidas de contenção econômica caso a crise energética se prolongue: “Entre as alternativas possíveis estão subsídios temporários ao combustível, utilização de reservas, ampliação de programas de compensação social e políticas de garantia de abastecimento interno. Vale comentar que em momentos de crise, a intervenção estatal não apenas se torna inevitável, como também representa uma função essencial e moral do Estado”.
Mesmo assim, na opinião de Bentes, dificilmente essas medidas conseguirão neutralizar completamente os efeitos inflacionários de um choque energético prolongado: “O diesel representa um ponto particularmente sensível da economia brasileira, pois sua cadeia de abastecimento depende parcialmente de importações. Um aumento significativo no preço do diesel impacta diretamente o custo do transporte rodoviário, que compõe o principal eixo logístico do país”.
Para Caleb, esse efeito tende a ser particularmente intenso em regiões como o nosso Oeste catarinense: “A economia da região possui características estruturais que a tornam especialmente sensível a choques de energia e insumos agrícolas. Trata-se de uma região fortemente integrada à agroindústria, com grande presença de cooperativas, pequenas e médias propriedades rurais, transportadoras e cadeias produtivas ligadas à produção de suínos e aves”.
O aumento do preço do diesel, conforme Bentes, impacta diretamente o custo logístico dessas cadeias, desde o transporte de ração e insumos até a distribuição de produtos finais: “Ao mesmo tempo, fertilizantes e insumos agrícolas também tendem a encarecer. O Brasil depende fortemente de importações desses produtos, e países do Oriente Médio e do Norte da África representam cerca de 30% do fornecimento externo”.
O próprio Irã foi responsável por 17% das importações brasileiras de ureia em 2025, o que torna a guerra um fator imediato de pressão sobre os custos da agricultura nacional, conforme Caleb: “Esse conjunto de fatores deve resultar em uma inflação de custos que se propaga de milhares de quilômetros do Brasil até o campo e o mercado consumidor brasileiro. Cooperativas e agroindústrias dificilmente absorvem esses aumentos por muito tempo”.
Como as cooperativas operam com margens relativamente ajustadas e em cadeias produtivas de grande escala, Bentes afirma que a tendência natural é que o aumento de custos seja rapidamente repassado ao longo da cadeia; primeiro aos produtores integrados e transportadores, e posteriormente ao consumidor final.
Além das consequências econômicas, a guerra, se prolongada, também terá impactos políticos internos no Brasil, na opinião de Bentes: “A elevação de preços e o eventual aumento do déficit fiscal, caso o governo adote políticas de subsídio ou contenção, provavelmente se tornarão temas centrais da disputa eleitoral de 2026”.Em um cenário de polarização entre Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), a narrativa sobre responsabilidade econômica e intervenção estatal tende a ocupar espaço no debate político nacional, na visão de Caleb: “Por fim, é importante notar que a guerra também pode produzir efeitos migratórios relevantes. Conflitos prolongados no Oriente Médio historicamente geram fluxos migratórios significativos, e o Brasil tem se tornado um destino cada vez mais comum para refugiados e migrantes de regiões em crise”.
Recadinhos
- No plano geopolítico, a guerra ressalta um mundo em transição. Conforme Bentes, os Estados Unidos ainda possuem capacidade militar dominante, mas sua capacidade de conduzir guerras sem impactos globais significativos diminuiu.
- Ao mesmo tempo, potências revisionistas como China e Rússia observam atentamente cada movimento do conflito, avaliando oportunidades e vulnerabilidades, na opinião de Caleb.
- Para Bentes, se o conflito se prolongar e continuar drenando recursos militares e políticos americanos no Oriente Médio, ele pode abrir janelas de oportunidades em outras regiões do globo, especialmente no Indo-Pacífico.
- Caleb conclui afirmando que não é improvável que, em meio ao momento atual no Oriente Médio, Cuba passe por uma intervenção, ou de alguma forma submerja na pressão de Donald Trump.






