
O cientista político de Videira, Caleb Bentes, está colaborando em três edições da coluna, abordando as consequências da guerra entre Irã, Estados Unidos e Israel para o Brasil, com detalhamentos específicos para o Oeste Catarinense. Nesta segunda parte, vamos explorar as fragilidades no sistema internacional contemporâneo que, conforme o cientista político, estão sendo reveladas por esta guerra.
A Rússia, na opinião de Caleb, mostrou-se de certa forma incapaz e desinteressada em oferecer apoio militar relevante ao Irã, concentrando seus recursos em outras frentes: “A China, por sua vez, responde de forma extremamente cautelosa, presa entre sua dependência energética do Golfo, seu interesse em evitar um confronto direto com os Estados Unidos e a prudência para não comprometer uma futura invasão à Taiwan”.
Esse comportamento, na visão de Bentes, ressalta uma percepção crescente de que no sistema internacional as alianças formais muitas vezes são mais frágeis do que aparentam quando confrontadas com crises militares: “Um dos elementos mais preocupantes da guerra é seu impacto no sistema energético global. O fechamento do Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de um quinto do petróleo comercializado no planeta, transformou rapidamente o conflito militar em uma crise econômica global potencial”.
Interrupções na produção e no transporte de petróleo no Golfo elevaram rapidamente os preços internacionais do barril, feito que nos rememora ao choque energético semelhante às crises petrolíferas da década de 1970: “A história mostra que conflitos no Golfo Pérsico raramente permanecem confinados ao campo militar. O petróleo transforma qualquer crise regional em um problema global imediato”, afirma Caleb.
O aumento abrupto do preço do barril resulta em inflação, aumento do custo do transporte, de alimentos e fertilizantes, produzindo um efeito cascata sobre praticamente todos os setores da economia mundial. Esse impacto inevitavelmente alcançará o Brasil, na opinião de Bentes: “Embora o país seja hoje um grande produtor de petróleo, ele ainda depende de importações relevantes de derivados, especialmente diesel, para abastecer seu mercado interno. Isso significa que choques internacionais de preços inevitavelmente acabam sendo transmitidos ao mercado doméstico”.
Contudo, o impacto não será imediato nem automático. Em 2023, a Petrobras abandonou formalmente a política de Preço de Paridade de Importação, que vinculava diretamente os preços internos às cotações internacionais do petróleo e à variação do dólar. A nova política passou a considerar também custos internos de produção, logística e refino, permitindo que a estatal absorva parcialmente oscilações externas no curto prazo.
Na prática, isso cria um amortecedor temporário contra choques externos: “A Petrobras pode atrasar ou suavizar repasses de preços para o consumidor brasileiro, evitando aumentos imediatos de combustíveis quando eventos geopolíticos provocam volatilidade internacional, mas é importante observar que esse mecanismo possui limites. Se os preços internacionais permanecerem elevados por um período prolongado, a empresa eventualmente será obrigada a ajustar os valores domésticos para evitar prejuízos financeiros e distorções no mercado”, conclui Caleb.
Recadinhos
- Nesse final de semana, manifestantes invadiram a sede do Partido Comunista na cidade de Morón, a cerca de 460 km de Havana, capital de Cuba.
- Conforme a newsletter The News, vídeos publicados nas redes sociais mostram manifestantes queimando documentos e móveis do governo nas ruas.
- Nos últimos dias, os protestos têm se espalhado pelo país em forma de panelaços. A revolta tem dois motivos: apagões constantes e falta de alimentos.
- Em algumas regiões da ilha, cidades chegam a ficar mais de 15 horas sem luz, enquanto produtos básicos simplesmente desaparecem das prateleiras.






