
A Venezuela voltou ao centro do tabuleiro geopolítico internacional. Mudanças abruptas no poder, bloqueio do petróleo, incerteza institucional e pressão externa recolocaram o país em um ponto crítico. Para o Brasil, isso não é um problema distante nem abstrato. A fronteira norte, os preços da energia e o orçamento público sentem primeiro. O debate sério, portanto, não é se haverá impacto, mas qual cenário tende a prevalecer — e como o Brasil deve se posicionar.
Há, hoje, três cenários plausíveis. Nenhum deles é neutro. Todos cobram um preço diferente.
O primeiro cenário é o da transição rápida com estabilização mínima. Nesse desenho, a mudança de poder se consolida em pouco tempo, há algum grau de reconhecimento internacional e o país inicia um processo controlado de reorganização institucional. Não se trata de prosperidade imediata, mas de contenção do caos. Para o Brasil, este é o cenário menos traumático. A pressão migratória cresce pouco, a fronteira permanece administrável e o impacto maior se concentra no curto prazo, especialmente na volatilidade do petróleo. Mesmo assim, não há milagre: combustíveis não caem “automaticamente”, e qualquer alívio dependerá de meses, talvez anos, de normalização produtiva e investimentos. É o melhor cenário possível, mas ainda assim exige cautela.
O segundo cenário é o da transição contestada com sanções prolongadas. Aqui, o poder muda, mas não se estabiliza. Parte da comunidade internacional reconhece o novo arranjo, parte não. Sanções continuam, o petróleo segue bloqueado ou parcialmente bloqueado, e a economia venezuelana permanece asfixiada. Para o Brasil, esse é um cenário de desgaste contínuo. A migração aumenta de forma constante, pressionando Roraima e exigindo mais recursos federais para acolhimento, saúde, segurança e interiorização. O custo não aparece em manchetes diárias, mas corrói silenciosamente o orçamento público. É o tipo de crise que não explode, mas também não acaba — e costuma ser a mais difícil de administrar politicamente.
O terceiro cenário é o da escalada com instabilidade prolongada. Esse é o pior dos mundos. Envolve ruptura institucional profunda, desorganização interna, colapso logístico e interrupção duradoura da produção de petróleo. Nesse contexto, o Brasil enfrenta uma combinação perigosa: aumento expressivo da migração desordenada, tensão social na fronteira, elevação de custos logísticos e mais incerteza no mercado de energia. O impacto não fica restrito ao Norte. Ele se espalha pelo país via orçamento, inflação setorial e risco político regional. Além disso, cresce o espaço para discursos simplistas, desinformação e uso eleitoral da crise.
Diante desses três cenários, há um ponto comum que precisa ser dito com clareza: crise venezuelana não é apenas um problema humanitário ou ideológico. É um problema econômico concreto para o Brasil. Fingir que não é, ou tratá-lo apenas como disputa narrativa, é má gestão pública.
O Brasil precisa agir com três princípios básicos. Primeiro, ordem. Fronteira exige controle, triagem, coordenação federativa e previsibilidade. Improvisação custa caro. Segundo, responsabilidade fiscal. Acolhimento sem planejamento vira gasto permanente sem solução estrutural. Terceiro, humanidade. Migrantes não são números nem ameaça abstrata; são pessoas empurradas por um colapso estatal. Ordem e acolhimento não são opostos — são complementares.
No debate energético, também é preciso honestidade. Prometer queda imediata de preços com base em mudanças políticas na Venezuela é vender ilusão. No curto prazo, crises aumentam risco e volatilidade. Só no médio e longo prazo, com produção regular e investimentos sustentáveis, o petróleo venezuelano poderia exercer algum efeito estrutural de alívio.
A pergunta central, portanto, não é qual cenário “torcemos” para que aconteça, mas se o Brasil está preparado para qualquer um deles. A história recente mostra que crises regionais não pedem licença. Elas chegam primeiro na fronteira, depois no orçamento e, por fim, no cotidiano das pessoas.
Ignorar os cenários é escolher o pior deles por omissão.







