
O Brasil encerrou 2025 com um dado incômodo que o discurso oficial tenta relativizar: o número de empresas em recuperação judicial atingiu o maior patamar da série histórica. Não se trata de um detalhe estatístico nem de um ajuste pontual do mercado. Trata-se de um sintoma claro de uma política econômica que falhou em criar condições mínimas de sobrevivência para quem produz, emprega e investe no país.
Ao final do ano, mais de 5.600 empresas estavam em recuperação judicial, com cerca de 1.600 novos pedidos apenas em 2025, crescimento superior a 30% em relação a 2024. É um volume que não pode ser explicado apenas por má gestão individual ou por eventos isolados. O problema é sistêmico. E sistemas colapsam quando o ambiente macroeconômico se torna hostil de forma persistente.
O primeiro fator é óbvio e recorrente: juros elevados por tempo prolongado. Manter o custo do dinheiro em níveis estratosféricos sufoca o caixa das empresas, inviabiliza renegociações e transforma dívidas administráveis em armadilhas financeiras. Para o pequeno e médio empresário, o crédito simplesmente desaparece ou chega com taxas incompatíveis com qualquer margem operacional razoável. O governo, ao aceitar essa dinâmica como “necessária”, transfere o ajuste para quem gera emprego.
O segundo fator é a restrição de crédito, agravada por um ambiente de desconfiança institucional. Após grandes crises corporativas recentes, o sistema financeiro se fechou ainda mais. O problema é que o governo não apresentou uma resposta coordenada para destravar o crédito produtivo. Não houve política consistente de garantias, nem instrumentos eficazes de reestruturação preventiva. O resultado é previsível: empresas recorrem ao Judiciário como último recurso para ganhar tempo.
Há ainda um terceiro elemento pouco discutido no debate público: a ausência de uma estratégia clara para o setor produtivo. O governo fala em crescimento, mas não entrega previsibilidade. Muda regras, amplia gastos, sinaliza aumento de carga tributária e convive com um ambiente fiscal permanentemente tensionado. O empresário não investe quando não consegue projetar custos, impostos e demanda. Ele se defende. E, quando não consegue mais, entra em recuperação judicial.
Os dados setoriais reforçam esse diagnóstico. Serviços lideram em número absoluto de empresas em recuperação, mas o crescimento mais acelerado ocorreu na agropecuária, com alta superior a 60% em um único ano. Em outras palavras, até setores tradicionalmente resilientes estão sendo empurrados para a corda bamba. Estados com economias mais dinâmicas concentram os maiores volumes de processos, o que desmonta a narrativa de que o problema está restrito a regiões frágeis.
O governo federal insiste em tratar esses números como herança do passado ou como efeito colateral inevitável. Não são. São consequência direta de escolhas atuais. Política econômica não é discurso, é resultado. E o resultado de 2025 foi um ambiente no qual milhares de empresas precisaram pedir socorro para não fechar as portas.
A recuperação judicial, vale lembrar, não é sinal de dinamismo econômico. É sinal de emergência. Quando ela vira regra, e não exceção, o problema não está apenas nas empresas. Está no modelo de condução da economia. Persistir nesse caminho é normalizar o colapso silencioso do setor produtivo brasileiro. E isso cobra um preço alto: menos investimento, menos emprego e menos crescimento real.






