
O orçamento federal de 2026 expõe um traço estrutural do Estado brasileiro que raramente é enfrentado com honestidade: manter uma dívida pública cara, em um país de renda média e profundamente desigual, não é apenas uma escolha técnica — é uma decisão com efeitos distributivos claros.
Dos cerca de R$ 6,5 trilhões previstos no orçamento, aproximadamente R$ 1,8 trilhão refere-se ao refinanciamento da dívida pública. Esse número costuma confundir o debate. Não se trata de gasto novo com políticas públicas, nem de pagamento direto de juros. É a rolagem de títulos que vencem. Ainda assim, ele revela a dimensão de um problema maior: o custo da dívida em um ambiente de juros persistentemente elevados.
Em 2026, a taxa básica de juros operou por longo período em patamar real alto para padrões internacionais. Isso significa que o Estado brasileiro remunera o capital financeiro a taxas elevadas, independentemente do crescimento da economia. O resultado é conhecido: quanto maior o juro, maior o esforço fiscal apenas para manter a dívida estável.
O impacto distributivo disso é pouco discutido. O Brasil arrecada grande parte de seus tributos sobre o consumo. Em termos simples, quem ganha menos paga proporcionalmente mais imposto. Já os rendimentos financeiros — especialmente os vinculados a títulos públicos — concentram-se em quem tem capacidade de poupança, isto é, quem consegue transformar renda em capital.
Não se trata de afirmar que “os impostos dos pobres pagam os juros dos ricos” de forma direta e mecânica. O sistema é mais complexo. Os detentores da dívida incluem bancos, fundos de pensão, seguradoras, investidores institucionais e também pequenos aplicadores. Mas a concentração de riqueza faz com que a maior parte dos rendimentos financeiros fique com quem já está no topo da distribuição de renda.
O efeito final é uma transferência estrutural de recursos. Não por um cheque explícito do Tesouro, mas por um arranjo em que:
o Estado arrecada fortemente sobre consumo e folha;
paga juros elevados para manter sua dívida;
remunera o capital financeiro em um país que cresce pouco;
e reduz o espaço para investimento público produtivo.
Em números práticos, enquanto áreas como saúde e educação disputam recursos dentro de limites rígidos, centenas de bilhões de reais por ano são absorvidos pelo custo financeiro do Estado. Isso não aparece como política pública, mas molda todas elas.
O problema central não é a existência da dívida pública — todos os países relevantes convivem com dívida. O problema é combinar dívida cara, baixo crescimento e alta desigualdade. Essa equação transforma a política fiscal em um mecanismo silencioso de concentração de renda.
Se o país cresce pouco, a dívida pesa mais. Se os juros são altos, o custo explode. Se o sistema tributário é regressivo, a conta recai sobre quem tem menos. O resultado é previsível: frustração social, descrédito institucional e um debate público raso, que oscila entre negar o problema ou transformá-lo em slogan ideológico.
O debate sério precisa mudar de eixo. Não é “gasto versus responsabilidade”, nem “Estado mínimo versus Estado máximo”. A pergunta central é outra: qual estrutura de juros, crescimento e tributação é compatível com um país que pretende reduzir desigualdades sem comprometer sua solvência?
Enquanto essa pergunta for evitada, o orçamento continuará sendo tecnicamente fechado e socialmente injusto — e a conta seguirá invisível para quem a paga todos os dias, mas muito visível para quem vive de rendimentos financeiros.







