
A política brasileira vive um paradoxo evidente. Quanto mais o sistema tenta encerrar Jair Bolsonaro na esfera judicial, mais ele se mantém no centro do debate público. A prisão do ex-presidente não o apagou do jogo político; ao contrário, produziu comoção nacional, mobilização de apoiadores e uma transferência clara de capital político para quem hoje representa esse campo nas urnas: Flávio Bolsonaro.
Os números ajudam a entender o fenômeno. Pesquisas recentes de segundo turno mostram Flávio superando Lula em alguns cenários, com algo próximo de 48% contra 42%, diferença que chega a 6 pontos percentuais. Não é pouco. Trata-se de um desempenho relevante para alguém que, até pouco tempo, era tratado como coadjuvante no debate presidencial. Em política, números assim não surgem do nada; refletem movimento social, identidade e reação.
A prisão de Jair Bolsonaro funcionou como um gatilho simbólico. Para seus eleitores, consolidou a narrativa de perseguição e reforçou a sensação de injustiça institucional. Isso não cria novos eleitores por milagre, mas solidifica a base existente, que no Brasil gira em torno de dezenas de milhões de pessoas. Essa base busca continuidade, não ruptura. E é nesse espaço que Flávio se posiciona como herdeiro político direto, com discurso, alianças e agenda reconhecíveis.
Do outro lado, o histórico de escândalos envolvendo o Partido dos Trabalhadores, os governos Lula e decisões controversas do Supremo Tribunal Federal segue vivo na memória coletiva. Mensalão, petrolão, bilhões desviados e depois parcialmente devolvidos, condenações anuladas não por absolvição de mérito, mas por falhas processuais. Tudo isso pesa. Pesquisa eleitoral não mede apenas presente; mede lembrança, ressentimento e comparação. E, nessa comparação, uma parcela expressiva do eleitorado não esqueceu.
Flávio Bolsonaro se beneficia exatamente desse contraste. Ele não carrega o desgaste direto de governar o país, mas incorpora o discurso de ordem, confronto ao sistema e crítica às elites políticas e judiciais. Ao mesmo tempo, articula alianças regionais, aproxima partidos de centro-direita e dialoga com setores econômicos que rejeitam instabilidade, inflação alta e insegurança jurídica. Isso explica por que, mesmo sem ocupar o Palácio do Planalto, já aparece competitivo em cenários nacionais.
Há ainda um dado estratégico: eleições se ganham no segundo turno. E é ali que Flávio mostra força. Enquanto Lula mantém rejeição elevada em segmentos importantes do eleitorado, Flávio cresce justamente onde o antipetismo segue acima de 40%. Não é emoção; é matemática eleitoral. Com uma base fiel, rejeição menor e herança política consolidada, ele entra no jogo real, não simbólico.
No fim, a tentativa de encerrar o bolsonarismo produziu o efeito inverso. A prisão do pai não encerrou o ciclo; acelerou a sucessão. E, goste-se ou não, Flávio Bolsonaro surge hoje como o principal beneficiário desse processo, com números, narrativa e alianças que o colocam no centro da disputa presidencial de 2026. A política brasileira já mostrou muitas vezes: quando o sistema aperta demais, o eleitor responde nas urnas.






