
Quando o nome de um ministro do Supremo aparece em mensagens extraídas do celular de um empresário investigado por fraudes bilionárias, o problema deixa de ser jurídico e passa a ser institucional. As menções a Dias Toffoli encontradas pela Polícia Federal no telefone de Daniel Vorcaro não são um detalhe lateral do caso Banco Master. Elas atingem o coração da confiança pública no sistema de Justiça.
A Polícia Federal não pediu suspeição por capricho ou bravata. O fez após perícia técnica, recuperação de mensagens apagadas e análise de conteúdo considerado sensível. Ao levar o tema ao presidente da Corte, a corporação sinalizou algo grave: a permanência do relator no caso pode comprometer a percepção de imparcialidade do processo. Em qualquer democracia madura, esse alerta seria tratado com cautela e humildade institucional.
A reação de Toffoli, ao desqualificar o pedido como ilação e questionar a legitimidade da Polícia Federal, desloca o foco do essencial. Não se trata de saber se a PF é parte formal do processo, mas de reconhecer que uma investigação criminal encontrou elementos que colocam o relator sob suspeita. Quando isso ocorre, a prudência recomenda afastamento, não confronto.
O argumento técnico serve pouco quando a aparência de conflito é evidente. Justiça não é apenas decidir corretamente; é parecer correta. Um ministro que conduz investigações sensíveis, controla sigilos e decide o destino de provas não pode carregar, ao mesmo tempo, a sombra de citações em mensagens privadas de investigados. Mesmo que nada venha a ser comprovado no mérito, o dano à credibilidade já está em curso.
O caso expõe um problema maior: a excessiva concentração de poder no Supremo e a dificuldade da Corte em se submeter a mecanismos claros de autocontenção. Quando ministros se tornam personagens centrais de crises políticas e criminais, o tribunal deixa de ser árbitro e passa a integrar o jogo. E isso corrói a autoridade moral da instituição.
Não é ataque pessoal. É defesa institucional. Afastar-se voluntariamente, permitir que outro ministro conduza o caso e garantir total transparência seria um gesto de grandeza e respeito à função. Insistir em permanecer, reagindo com tecnicismos e desqualificação da investigação, apenas amplia a desconfiança.
O Brasil já convive com escândalos demais para normalizar mais um. Quando a dúvida alcança o topo do Judiciário, não basta dizer que tudo é legal. É preciso demonstrar, de forma inequívoca, que também é legítimo.






