
A pesquisa do Datafolha sobre as metas dos brasileiros para 2026 revela muito mais do que números. Ela aponta o retrato psicológico, econômico e social de um país que, depois de anos de tensão, incerteza e instabilidade, parece buscar menos o sonho grandioso e mais o básico: estabilidade, saúde, convivência, autonomia e esperança concreta. É um Brasil menos eufórico, porém mais consciente.
A principal meta, indicada por 44% dos entrevistados, é economizar dinheiro. Esse dado, à primeira vista, pode ser interpretado como simples prudência financeira. Mas ele carrega um significado profundo: o brasileiro quer recuperar o controle da própria vida. Em um país que conviveu com inflação elevada, endividamento das famílias, instabilidade no mercado de trabalho e medo do futuro, poupar significa respirar. Significa não depender tanto da sorte, do improviso, do acaso. É um desejo de proteção contra choques, de segurança para a família, de dignidade no planejamento do amanhã.
Logo depois vem uma meta que também diz muito sobre o nosso tempo: 37% querem passar mais tempo com a família e amigos. A pandemia ensinou, de forma dolorosa, o valor das relações humanas. A dinâmica do trabalho remoto, a intensificação da vida digital e a aceleração do cotidiano criaram um paradoxo: estamos conectados com o mundo inteiro, mas muitas vezes distantes de quem realmente importa. O brasileiro parece estar dizendo que não quer apenas sobreviver economicamente, quer viver com afeto, presença e vínculo.
As metas relacionadas à saúde física e emocional também ocupam papel de destaque: melhorar a alimentação, começar atividade física e cuidar da saúde mental aparecem entre as prioridades. Isso mostra um país mais atento ao próprio corpo e à própria mente. Se antes a saúde era preocupação apenas quando faltava, agora ela surge como projeto de vida. Não é uma busca de luxo, mas de equilíbrio.
Outro conjunto de metas indica algo igualmente relevante: o desejo de autonomia profissional e crescimento. Uma parcela expressiva pretende abrir um negócio, trabalhar por conta própria, fazer cursos e adquirir novas habilidades. Isso pode ser lido sob duas lentes. De um lado, revela o espírito empreendedor que historicamente acompanha o brasileiro. De outro, pode ser reflexo de um mercado de trabalho que ainda não garante estabilidade e reconhecimento. Onde a empresa não assegura futuro, o indivíduo tenta construí-lo.
Há ainda um dado simbólico: apenas 1% declarou não ter meta alguma. Em um país tantas vezes descrito como desanimado, desacreditado ou derrotado, esse número é, por si só, uma boa notícia. A maior parte das pessoas está projetando, sonhando, se movimentando. E esse movimento é reforçado pelo otimismo revelado na mesma pesquisa: quase 70% acreditam que 2026 será melhor que 2025 para sua vida pessoal e 60% acham que será melhor para o país. Em tempos polarizados, cheios de narrativas de medo e catástrofe, o brasileiro comum parece mais esperançoso do que o debate público sugere.
O que essas metas, somadas, mostram é um Brasil que quer menos espetáculo e mais normalidade. Um país que aprendeu, talvez à força, que felicidade não está necessariamente em consumir mais, mas em viver melhor. Um país que deseja estabilidade financeira, saúde, relações sólidas, trabalho digno e horizonte possível. Isso não resolve nossos problemas estruturais. Não elimina desigualdade, não corrige falhas do Estado, não substitui reformas essenciais. Mas indica uma disposição social importante: a maioria das pessoas quer melhorar, está disposta a agir e acredita que pode.
Se a política, a economia e as instituições entenderem esse recado, talvez 2026 possa, de fato, ser melhor do que 2025. Porque um país começa a mudar quando seu povo passa a desejar, de maneira consciente, uma vida mais segura, mais humana e mais equilibrada. E esse Brasil, ao que tudo indica, já começou a nascer dentro de cada meta pessoal.





