sábado, janeiro 10, 2026
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Mercosul–União Europeia: um acordo que o Brasil não pode desperdiçar

Confira a coluna do professor Dr. Givanildo Silva

Prof. Givanildo Silva – Doutor em Ciências Contábeis e Administração.

Depois de mais de vinte anos de negociações, o acordo entre o Mercosul e a União Europeia chegou ao ponto em que a política precisa acompanhar a economia. Não se trata mais de “se” o acordo faz sentido, mas de reconhecer que o custo de não avançar é maior do que os riscos de avançar.

Os números ajudam a tirar o debate do campo ideológico. Hoje, antes mesmo do acordo, o comércio anual de bens entre os dois blocos já supera € 110 bilhões, com leve vantagem para o Mercosul nas exportações. A União Europeia é, disparado, o maior investidor estrangeiro direto na região, com um estoque estimado em cerca de € 390 bilhões. Não estamos falando de uma promessa futura, mas de uma relação econômica já consolidada, que opera com freios artificiais impostos por tarifas e barreiras regulatórias.

Do lado europeu, a própria Comissão estima que o acordo reduziria tarifas que hoje custam mais de € 4 bilhões por ano às empresas do bloco. Carros enfrentam tarifas de até 35% no Mercosul; máquinas, cerca de 20%; produtos químicos, 18%; medicamentos, 14%. A eliminação gradual dessas tarifas tende a baratear investimentos, ampliar cadeias produtivas e aumentar a competição em setores onde o Brasil ainda carece de produtividade.

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No campo mais sensível — o agrícola —, o discurso alarmista ignora os limites reais do acordo. A famosa quota de carne bovina do Mercosul para a União Europeia é de 99 mil toneladas, com tarifa de 7,5%, em um mercado que consome milhões de toneladas por ano. Para aves, a quota é de 180 mil toneladas, sem tarifa, implementada gradualmente. No etanol, fala-se em 450 mil toneladas para uso químico sem tarifa e mais 200 mil toneladas com tarifa reduzida. São números relevantes, mas longe de qualquer “invasão” capaz de desestruturar o campo europeu.

O que esses valores revelam é outra coisa: o acordo é, na prática, prudente e controlado, cheio de salvaguardas e prazos longos. Ainda assim, a resistência política na Europa levou a Comissão a discutir pacotes de compensação que chegam a € 45 bilhões para agricultores, além de fundos de crise adicionais. Ou seja, o impasse não é técnico nem econômico, mas eleitoral e simbólico.

Para o Mercosul — e especialmente para o Brasil —, os ganhos potenciais são claros. Estudos de impacto indicam aumento de até 0,3% do PIB no longo prazo para o bloco sul-americano, mais que o triplo do efeito estimado para a União Europeia. Mais importante do que o percentual é a qualidade desse crescimento: acesso preferencial a um mercado de alta renda, previsibilidade jurídica, atração de investimentos e pressão positiva por padrões mais elevados de produção, sustentabilidade e governança.

Rejeitar ou adiar indefinidamente esse acordo significa aceitar a irrelevância estratégica em um mundo que se organiza por grandes blocos econômicos. Enquanto isso, outros países avançam com acordos bilaterais, ocupam mercados e consolidam cadeias globais de valor.

O acordo Mercosul–União Europeia não é perfeito, mas nenhum acordo dessa escala é. Ele é, porém, necessário. Necessário para diversificar mercados, reduzir dependências, elevar padrões produtivos e inserir o Brasil de forma mais madura na economia global. Insistir no medo, diante de números tão claros, é escolher o atraso como política econômica.

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