
Há momentos na história em que a neutralidade confortável deixa de ser virtude e passa a ser omissão. O cenário internacional atual é um desses momentos. Diante de regimes que corroem instituições, desafiam regras mínimas de convivência internacional e utilizam energia, migração e instabilidade como instrumentos de poder, os Estados Unidos cumprem um papel que muitos preferem criticar à distância, mas poucos estariam dispostos a assumir.
A Venezuela é o exemplo mais próximo e mais evidente. Um país com as maiores reservas de petróleo do mundo conseguiu a proeza de colapsar sua economia, destruir sua moeda, empurrar milhões de pessoas para fora de suas fronteiras e transformar o Estado em uma máquina de controle político. Não se trata mais de soberania, mas de um regime que sequestrou o próprio país. Defender a Venezuela “em nome do anti-imperialismo” é, na prática, defender a perpetuação da miséria e da repressão.
Os Estados Unidos, ao pressionarem Caracas, não miram o povo venezuelano, mas um sistema que instrumentaliza o petróleo para sustentar uma elite política e militar. A crítica recorrente de que Washington “quer o petróleo” ignora um dado simples: os EUA já são uma potência energética. O interesse real é estabilidade regional. Um Estado falido na América do Sul não é problema apenas local; é um vetor permanente de crise humanitária, econômica e política para toda a região.
O Irã, por sua vez, representa um risco de outra natureza, mas não menos grave. Trata-se de um regime que opera deliberadamente na lógica do confronto indireto, financiando conflitos, tensionando rotas estratégicas de energia e desafiando, de forma contínua, os limites do sistema internacional. Quando o Irã ameaça o Estreito de Ormuz, não ameaça “o Ocidente”; ameaça o funcionamento da economia global. Petróleo caro não é punição a governos, é inflação, desemprego e instabilidade para bilhões de pessoas.
Ao contrário da narrativa simplista, os Estados Unidos não buscam administrar países nem ocupar territórios. Buscam conter riscos sistêmicos. O mundo contemporâneo não funciona mais com guerras clássicas, mas com chantagens geopolíticas, uso político da energia, da migração e da instabilidade financeira. Venezuela e Irã dominam essa gramática. Fingir que isso é irrelevante é fechar os olhos para a realidade.
Há também um aspecto que raramente é dito em voz alta: se os Estados Unidos recuam, alguém ocupa o espaço. E esse “alguém” não costuma ser movido por valores democráticos, transparência ou direitos humanos. O vácuo de poder não gera equilíbrio; gera disputa. E a história mostra que disputas sem árbitro tendem ao conflito aberto.
Defender a postura dos Estados Unidos não é defender perfeição moral nem negar erros históricos. É reconhecer que, no tabuleiro atual, a contenção de regimes autoritários que usam o caos como estratégia é um mal necessário. Venezuela e Irã não são vítimas inocentes de um sistema injusto; são atores conscientes que exploram esse sistema até o limite.
No fim, a pergunta que deveria orientar o debate é simples: quem se beneficia do enfraquecimento da pressão internacional sobre esses regimes? Certamente não os venezuelanos comuns, nem os consumidores globais de energia, nem a estabilidade regional. Em um mundo imperfeito, escolher lados não é questão de ideologia, mas de responsabilidade.






