
O Brasil vive uma contradição que precisa ser observada com atenção. De um lado, a economia apresenta sinais positivos. O país registrou crescimento de aproximadamente 2,3% em 2025, inflação controlada na faixa de 4% e uma taxa de desemprego em torno de 5,6%, uma das menores dos últimos anos. Em muitos indicadores macroeconômicos, o cenário parece razoavelmente estável.
No entanto, quando se observa o cotidiano das empresas, especialmente das micro e pequenas, o quadro é bastante diferente. O número de pedidos de recuperação judicial aumentou de forma significativa. Em 2024, o Brasil registrou 2.273 pedidos, o maior número da série histórica. Em 2025, os números continuaram elevados, com centenas de empresas recorrendo à Justiça apenas nos primeiros meses do ano.
Esse dado revela um fenômeno importante: a economia pode crescer e, ao mesmo tempo, as empresas podem enfrentar dificuldades severas de caixa. Isso acontece porque o crescimento agregado não se distribui de maneira uniforme entre os setores. Em muitos casos, alguns segmentos avançam com mais força, enquanto outros permanecem pressionados por custos, juros elevados e margens cada vez menores.
A situação se agrava quando se observa o perfil das empresas que entram em recuperação judicial. A grande maioria é formada por micro e pequenas empresas. São negócios familiares, pequenas indústrias, lojas de comércio e empresas de serviços que sustentam boa parte da geração de empregos nas cidades brasileiras.
Essas empresas enfrentam um ambiente extremamente desafiador. O crédito continua caro, os prazos de pagamento são longos, os custos operacionais seguem elevados e a concorrência é cada vez mais intensa. Ao mesmo tempo, muitos consumidores continuam cautelosos em suas compras, o que reduz o volume de vendas e pressiona ainda mais o fluxo de caixa das empresas.
Outro dado que chama atenção é o crescimento da inadimplência empresarial. Milhões de empresas brasileiras acumulam dívidas em atraso, somando centenas de bilhões de reais. Esse cenário cria um efeito dominó: empresas atrasam pagamentos, fornecedores ficam sem receber, bancos restringem crédito e a pressão financeira aumenta em toda a cadeia produtiva.
Por isso, o aumento dos pedidos de recuperação judicial não deve ser interpretado apenas como falhas de gestão empresarial. Em muitos casos, trata-se de uma consequência direta de um ambiente econômico difícil para quem produz, investe e gera empregos.
A recuperação judicial, na prática, tornou-se um instrumento de sobrevivência para muitas empresas. Ela permite renegociar dívidas e reorganizar o negócio antes que a falência se torne inevitável. No entanto, quando o número de pedidos cresce de forma acelerada, isso revela um problema estrutural mais amplo.
O grande desafio para os próximos anos será transformar crescimento macroeconômico em sustentabilidade empresarial real. Isso passa necessariamente por crédito mais acessível, redução do custo financeiro e condições mais favoráveis para quem empreende.
Caso contrário, o país continuará convivendo com um paradoxo perigoso: indicadores econômicos aparentemente positivos convivendo com milhares de empresas lutando apenas para sobreviver.
Quando a recuperação judicial vira rotina, o problema já não é apenas da empresa — é do ambiente econômico.






