
Há uma linha clara entre política cultural e propaganda política. O governo federal decidiu cruzá-la ao permitir que recursos públicos orbitassem um desfile de escola de samba que homenageia Luiz Inácio Lula da Silva justamente em ano eleitoral, com o próprio homenageado no centro do debate sucessório. Não se trata de censura artística nem de desprezo pela cultura popular; trata-se de responsabilidade com o dinheiro do contribuinte e respeito às regras do jogo democrático.
Os fatos são objetivos. A Embratur repassou recursos a escolas de samba, entre elas a que levou à avenida um enredo biográfico sobre o presidente. O valor amplamente citado e confirmado em reportagens foi de 1 milhão de reais. O governo se defende dizendo que os repasses foram padronizados e que não interfere em enredos. Essa explicação é conveniente, mas insuficiente. Em política, contexto importa. Em ano eleitoral, homenagear o chefe do Executivo com dinheiro público não é ingenuidade; é escolha.
A justificativa cultural não elimina o problema ético nem o risco jurídico. O Carnaval do Rio é um dos maiores eventos de visibilidade do país, transmitido em rede nacional, com alcance massivo e impacto simbólico evidente. Transformar esse palco em exaltação de um pré-candidato, ainda que sob o rótulo de “trajetória histórica”, cria vantagem indevida e desequilibra a competição. Se fosse qualquer outro governante, a crítica seria a mesma.
Não por acaso, o caso chegou ao Tribunal de Contas da União e gerou projetos no Congresso para proibir homenagens a autoridades em desfiles financiados com verba federal. Mesmo quando decisões pontuais mantêm o repasse, o debate permanece: legalidade mínima não equivale a legitimidade política. Governar é também evitar situações que corroem a confiança pública.
O governo insiste em tratar a reação como moralismo seletivo da oposição. É um erro. A crítica central vem do cidadão comum, que paga impostos e espera prioridades claras: saúde, educação, segurança, infraestrutura. Em um país com filas no sistema de saúde e dificuldades fiscais recorrentes, usar dinheiro público em ações que tangenciam promoção pessoal é, no mínimo, insensibilidade.
O alerta final é simples. Quando o Estado confunde cultura com campanha, abre precedente perigoso. Hoje é um desfile; amanhã pode ser qualquer evento financiado pelo orçamento. Democracia não se sustenta apenas no voto, mas em regras justas e em limites claros ao uso da máquina pública. O governo deveria saber disso melhor do que ninguém.





