
Durante muito tempo, o esgotamento profissional foi tratado como frescura, incapacidade individual ou simples falta de “força emocional”. Hoje, virou estatística oficial, linha de gasto público e problema estrutural. Os afastamentos por burnout dispararam no Brasil e os auxílios-doença ligados à saúde mental já pressionam, de forma concreta, a Previdência Social. O que antes era invisível virou custo — e custo alto.
Os números explicam por que o tema saiu do consultório e entrou no debate econômico. Entre 2021 e 2024, os afastamentos registrados especificamente como esgotamento profissional saltaram de pouco mais de 800 para quase 5 mil casos, um crescimento superior a 490%. Apenas no primeiro semestre de 2025, já havia mais de 3,4 mil registros, o equivalente a mais de 70% de todo o volume do ano anterior. Não é oscilação estatística; é tendência clara.
O avanço é ainda mais expressivo quando se olha o conjunto da saúde mental. Em 2024, o INSS concedeu cerca de 472 mil auxílios-doença por transtornos mentais, contra aproximadamente 283 mil em 2023. Em apenas um ano, o crescimento foi superior a 65%. No primeiro semestre de 2025, esses afastamentos já ultrapassaram 270 mil concessões, representando cerca de um em cada sete benefícios por incapacidade concedidos no país.
Há duas leituras recorrentes — e perigosas quando feitas de forma isolada. A primeira diz que “as pessoas estão mais frágeis” ou que isso seria apenas frescura. A segunda afirma que “o sistema está sendo abusado”. Ambas ignoram o dado central: o adoecimento cresce em velocidade muito superior ao crescimento do emprego formal, o que aponta para mudanças profundas na forma como o trabalho está sendo organizado.
O que mudou não foi apenas a saúde das pessoas. Mudaram as relações de trabalho, a intensidade das cobranças, a insegurança econômica, a lógica de metas permanentes e a dissolução das fronteiras entre vida profissional e pessoal. Em muitos setores, trabalha-se mais horas, com mais pressão, menos autonomia e menor previsibilidade. O resultado aparece nas estatísticas: afastamentos mais frequentes, mais longos e com maior reincidência.
A Previdência entra nessa história como o último amortecedor social. E isso tem preço. As despesas com auxílios-doença saltaram de cerca de R$ 18,9 bilhões em 2022 para aproximadamente R$ 31,8 bilhões em 2024. Parte relevante desse crescimento está associada justamente aos afastamentos por transtornos mentais, que costumam ter duração maior, demandam perícias repetidas e apresentam dificuldade de reinserção definitiva no trabalho.
Há também um fator institucional importante: o reconhecimento mais claro do burnout nos sistemas de classificação e registro. Isso reduz subnotificação e melhora o diagnóstico, mas também expõe um problema que antes ficava diluído sob códigos genéricos como ansiedade ou depressão. Parte do aumento é transparência; outra parte é deterioração real das condições de trabalho.
O debate sério começa quando se entende que essa conta não é apenas da Previdência. Ela é compartilhada com empresas, gestores, políticas públicas e cultura organizacional. Cada afastamento representa perda de produtividade, ruptura de equipes, aumento do risco trabalhista e custo indireto para as organizações. Para o trabalhador, quase sempre significa benefício menor que o salário, tratamento prolongado e incerteza sobre o futuro profissional.
Ignorar esse cenário é insistir em um modelo que socializa o prejuízo e privatiza a pressão. As empresas pressionam até o limite; quando o limite estoura, o Estado paga. O resultado é financeiramente insustentável e socialmente injusto.
O caminho não está em endurecer perícias nem em criminalizar quem adoece. Está em prevenção real: gestão responsável, metas plausíveis, lideranças preparadas, ambientes de trabalho psicologicamente seguros e políticas públicas que incentivem boas práticas organizacionais. Burnout não é apenas um problema individual; é um indicador claro de falha sistêmica.
Quando o esgotamento vira política pública por omissão, o recado é inequívoco: algo está profundamente errado na forma como estamos trabalhando, gerindo e vivendo. A Previdência apenas revela a fatura.






