quinta-feira, janeiro 22, 2026
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Autoexclusão em massa expõe o custo social invisível das apostas online

Confira a coluna do professor Dr. Givanildo Silva

Prof. Givanildo Silva – Doutor em Ciências Contábeis e Administração.

O dado é oficial e deveria provocar mais inquietação do que celebração arrecadatória: mais de 217 mil brasileiros pediram, em pouco mais de 40 dias, a exclusão voluntária de suas contas em sites de apostas online. A informação, divulgada pelo Ministério da Fazenda, revela algo que os balanços fiscais não mostram: o preço social crescente de um mercado que avança mais rápido do que a capacidade de proteção do Estado e da sociedade.

A autoexclusão não é um gesto trivial. Ela costuma ocorrer quando o indivíduo reconhece que perdeu o controle, quando o impacto financeiro já é sentido ou quando a vida pessoal começa a ser afetada. O fato de 73% dos pedidos serem por tempo indeterminado indica não apenas cautela, mas desistência. É um movimento de recuo, quase sempre tardio, depois do dano instalado.

Os números ajudam a dimensionar o paradoxo. Em 2025, o setor de apostas movimentou estimadamente R$ 37 bilhões em receita bruta, com arrecadação fiscal próxima de R$ 8,8 bilhões. Ao mesmo tempo, cerca de 25 milhões de brasileiros apostaram ao menos uma vez no ano, com gasto médio mensal em torno de R$ 160 por pessoa. Quando se cruza esse dado com as autoexclusões, fica claro que não se trata de casos isolados, mas de um padrão estrutural de risco social.

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O primeiro impacto é sobre as famílias. Apostas não consomem apenas renda disponível; frequentemente corroem orçamento essencial. Contas atrasadas, endividamento informal, conflitos conjugais e quebra de confiança tornam-se efeitos colaterais recorrentes. Em famílias de renda média e baixa, a perda de poucos milhares de reais pode significar meses de instabilidade.

No mercado de trabalho, o reflexo também é mensurável, ainda que pouco contabilizado. Queda de produtividade, distração contínua, uso do tempo de expediente para apostas e aumento de afastamentos por questões psicológicas já aparecem em relatos de empresas e profissionais de saúde. É um custo difuso, mas real, pago silenciosamente por empregadores e pela economia.

Há ainda o impacto direto sobre o sistema público. Os próprios dados da Fazenda indicam que 37% dos pedidos de exclusão estão ligados à perda de controle e sofrimento psicológico. Isso significa maior pressão sobre a saúde mental pública, sobre a assistência social e, no médio prazo, sobre a Previdência. Cada real arrecadado no setor tende a gerar uma despesa indireta que raramente entra na conta oficial.

A autoexclusão, embora necessária, é um instrumento defensivo. Ela transfere ao indivíduo a responsabilidade final de se proteger de um ambiente desenhado para estimular o consumo contínuo. O volume de pedidos sugere que a política pública falhou na prevenção, seja na publicidade agressiva, na facilidade de crédito implícita, na ausência de limites de gasto claros ou na normalização cultural do jogo como renda extra.

O debate, portanto, precisa amadurecer. Não se trata de proibir apostas, mas de reconhecer que a regulação não pode se limitar à arrecadação e à legalidade formal. É preciso incorporar indicadores de impacto social, restringir publicidade dirigida, estabelecer limites automáticos de gasto e integrar o tema às políticas de saúde pública.

Os 217 mil pedidos de autoexclusão não são apenas um número administrativo. São um sinal coletivo de alerta. Ignorá-lo é aceitar que o custo social continue invisível, enquanto os ganhos permanecem visíveis apenas no caixa do Estado.

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