quinta-feira, janeiro 8, 2026
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A prisão de Maduro e o constrangimento da esquerda latino-americana

Confira a coluna do professor Dr. Givanildo Silva

Prof. Givanildo Silva – Doutor em Ciências Contábeis e Administração.

A prisão de Nicolás Maduro não é apenas um fato policial ou diplomático. Ela funciona como um espelho incômodo para governos de esquerda nas Américas, expondo contradições acumuladas ao longo de mais de uma década de ambiguidades, silêncios calculados e apoios seletivos em nome da soberania, do anti-imperialismo ou da chamada não intervenção.

Nas primeiras 72 horas após o episódio, os fatos falam mais alto do que os discursos longos. O que se viu foi um padrão claro: condenação formal à ação dos Estados Unidos, defesa genérica do direito internacional e, em vários casos, nenhum comentário direto sobre o personagem central do drama. O nome de Maduro apareceu pouco; o desconforto, muito.

No Brasil, o governo reagiu rapidamente à forma, não ao conteúdo. Reunião de emergência no Itamaraty, condenação à intervenção externa e telefonema para representantes do governo venezuelano indicaram preocupação com estabilidade regional, não com a natureza do regime. É uma posição coerente com a diplomacia brasileira recente, mas politicamente custosa: ao evitar qualquer juízo sobre Maduro, o governo se coloca novamente no campo da ambiguidade moral.

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O México seguiu roteiro parecido. A presidente Claudia Sheinbaum reafirmou a tradição da não intervenção e rejeitou ações unilaterais. O discurso é institucionalmente consistente, mas ignora o elefante na sala: a prisão não foi de um líder eleito em plena normalidade democrática, mas de um governante acusado internacionalmente de violações graves. O silêncio sobre isso não é neutralidade; é escolha política.

Na Colômbia e no Chile, a reação foi mais cautelosa e, ao mesmo tempo, mais sofisticada. Ambos aderiram a comunicados conjuntos que condenam a ação militar, mas sem defender explicitamente Maduro. No caso chileno, isso reforça uma linha já adotada pelo governo Boric: distanciar a esquerda democrática do autoritarismo venezuelano. A Colômbia, por sua vez, tenta equilibrar pragmatismo regional com pressão interna, especialmente em um ambiente político polarizado.

O Uruguai talvez tenha sido o mais institucional. Falou em preocupação, proteção consular e zona de paz. Não defendeu Maduro, não celebrou sua prisão, não entrou em confronto retórico. É a vantagem de quem construiu, ao longo do tempo, uma política externa previsível e menos ideologizada.

O contraste mais forte veio de Cuba e da Nicarágua. Ambos reagiram com dureza, exigindo a libertação imediata de Maduro e denunciando agressão imperialista. Aqui não há ambiguidade: a prisão de um aliado é percebida como ameaça direta à própria sobrevivência dos regimes. A retórica inflamada não é solidariedade; é autopreservação.

O dado mais revelador não está no que foi dito, mas no que não foi. Nenhum governo de esquerda democrático saiu publicamente em defesa da legitimidade política de Maduro. Ninguém afirmou que se tratava de um presidente injustiçado. Esse silêncio coletivo indica algo importante: a esquerda latino-americana já perdeu disposição para carregar o peso simbólico da Venezuela, mas ainda não encontrou coragem para romper de vez com o passado.

O custo político interno dessa postura é real, embora diferenciado. Não se trata de risco imediato de queda de governos, mas de erosão narrativa. A cada episódio como este, fica mais difícil sustentar um discurso de defesa da democracia e dos direitos humanos sem explicar por que, durante anos, tolerou-se ou relativizou-se um regime autoritário na região.

No fundo, a prisão de Maduro obriga a esquerda a responder uma pergunta simples e desconfortável: até onde vai a solidariedade ideológica quando ela entra em choque com princípios democráticos básicos? Fugir da resposta pode parecer prudente no curto prazo. No médio, cobra-se o preço. O silêncio, neste caso, grita.

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