
Durante décadas, a obesidade foi tratada como consequência exclusiva de escolhas inadequadas ou falta de disciplina. Esse entendimento, porém, não se sustenta diante do conhecimento científico atual. Hoje, a obesidade é reconhecida como uma doença crônica, multifatorial e recidivante, determinada por complexas interações entre biologia, genética, ambiente e comportamento.
Do ponto de vista fisiopatológico, o peso corporal não é regulado apenas pela vontade. O organismo humano possui sistemas altamente eficientes para manter suas reservas energéticas, controlados principalmente pelo sistema nervoso central. Hormônios como a leptina, responsável por sinalizar saciedade ao cérebro, a grelina, que estimula a fome, e a insulina, envolvida no armazenamento de energia, sofrem alterações importantes na obesidade. Em muitos pacientes ocorre resistência à leptina, fazendo com que o cérebro continue “pedindo comida” mesmo quando há excesso de gordura corporal.
Além disso, fatores genéticos exercem papel relevante: estudos mostram que uma parcela significativa da predisposição à obesidade é hereditária. Quando indivíduos biologicamente suscetíveis são expostos a ambientes obesogênicos — marcados por alimentos ultraprocessados, sedentarismo, privação de sono e estresse crônico — o risco de desenvolver obesidade aumenta de forma expressiva.
Esses mecanismos ajudam a explicar por que dietas restritivas, isoladamente, costumam falhar a longo prazo. Após a perda de peso, o corpo responde reduzindo o gasto energético e aumentando os sinais de fome, favorecendo a recuperação do peso perdido. Esse fenômeno caracteriza a obesidade como uma condição crônica, e não como um problema pontual.
Tratamento moderno e o papel das “canetas emagrecedoras”
O manejo atual da obesidade vai além de recomendações genéricas. Ele inclui mudanças graduais de estilo de vida, acompanhamento comportamental e, em muitos casos, tratamento farmacológico baseado em evidência científica.
Nesse cenário, destacam-se as chamadas “canetas emagrecedoras”, medicamentos injetáveis que atuam em hormônios intestinais, como os agonistas do receptor do GLP-1. Essas terapias modulam centros cerebrais da fome e da saciedade, reduzem o apetite e melhoram parâmetros metabólicos, como glicemia e resistência à insulina.
Ensaios clínicos robustos demonstraram perda de peso clinicamente significativa e sustentada, além de benefícios cardiovasculares em grupos selecionados. Por isso, essas medicações passaram a integrar diretrizes nacionais e internacionais para o tratamento da obesidade.
É importante reforçar: não são soluções milagrosas, nem substituem hábitos saudáveis. Devem ser usadas com indicação médica, dentro de um plano individualizado e com acompanhamento contínuo — como qualquer tratamento de doença crônica.
Ciência, não julgamento
Reduzir a obesidade a falha de caráter ignora a fisiopatologia da doença e afasta pacientes do cuidado adequado. Reconhecê-la como doença crônica e utilizar terapias eficazes não é “facilitar”, mas tratar com ciência, responsabilidade e empatia.
Dr. Leonardo Hansen
Formado em Medicina pela Universidade Luterana do Brasil
Médico especialista em Medicina Interna pela Universidade Federal Fronteira Sul
Formado em Medicina em 2015, realizou sua especialização na área de Clínica Médica, atuando posteriormente no meio intra-hospitalar nas áreas de Internação, Unidade de Terapia Intensiva e Emergência
Reside em Chapecó e hoje tem foco em atendimentos ambulatoriais.
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