quinta-feira, agosto 13, 2026
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Quinta da Opinião: Anos 70 e 80; Um tempo e muitas vidas

Leia a coluna especial do Doutor Vitor Marcelo Vieira

Foto: Vitor Marcelo Vieira | Radialista (locutor e repórter), Doutor em História do Tempo Presente (UDESC) e membro da ACHE Associação Chapecoense de Escritores

Narciso, que já andava pelos ares e pelas luzes das sinistras bibliotecas, percorreu também pelas repartições que fabricavam e forneciam sonhos aos pré-adolescentes.

Quando chegou aos 15 anos começou a trabalhar. Seu segundo emprego foi em rádio. Começou como sonoplasta, depois virou repórter de futebol, fez redação de notícias e esporte e finalmente aquilo que ele gostaria muito, ser locutor. Como sonoplasta durante algum tempo abria a programação da rádio as 4h30min. A rádio entrava no ar as 5h00min, mas ele chegava meia hora antes no inverno, porque era preciso ligar as cartucheiras com antecedência para que elas esquentassem. Caso não fizesse isso, os rolos da cartucheira que faziam o cartucho rodar não funcionavam devido ao frio. Houve algumas vezes que Narciso chegou em cima da hora no inverno e ao ligar, os cartuchos não rodavam. Pareciam uma fita K7 que roda lenta no gravador e quase para devido as pilhas fracas, de modo que num determinado momento não roda mais e acaba enrolando a fita. A abertura da programação era narrada por um locutor da emissora com um fundo musical de orquestra. O menino costumava se admirar com aquelas músicas marcantes de fundo musical e ia conferir quem eram os autores. Na discoteca da rádio ele encontrava Frank Pourcel, Paul Mauriat, Ray Connif e Billy Vaughn. Tudo era novo para ele. Também, não poderia deixar de ser, pois testemunhou o lançamento de grandes astros nacionais e internacionais. Para ter uma ideia, o que lhe encantou foi poder apalpar com suas mães o LP duplo da banda inglesa Pink Floyd que marca gerações, o famoso álbum The Wall. Ele pode sentir isso no momento que a banda estava lançando essa obra-prima. Para ele foi um momento de encantamento. Após a abertura da programação do dia iniciava um

programa informativo para o homem do campo. Esse programa que era gravado em rolos de fitas de gravador Akai, vinha pelos Correios para a rádio com vários programas que duravam cinco minutos diários, cada um para o seu dia. O programa a seguir que tocava músicas sertanejas raiz, mas que naquele momento não era usado o termo música sertaneja raiz, porque essas músicas estavam sendo lançadas e as duplas que marcaram, como Tonico e Tinoco, por exemplo, estavam em plena atividade de gravar e fazer shows. Nessa altura o locutor já estava no estúdio lendo os jornais do dia anterior que ficavam sobre a mesa, porque os jornais que cegavam todos os ias para a rádio vinham do Rio Grande do Sul pelo ônibus que chegavam na rodoviária da cidade no clarear do dia. Ali já estavam esperando os responsáveis pela distribuição e os jornaleiros, que chegavam ali de bicicleta, amarravam um monte enorme de jornais na garupa da bicicleta e iniciava a entregar os jornais nas casas. Narciso olhando para o locutor do programa lendo os jornais

da manhã no estúdio, lembrou que certa vez, antes de começar a trabalhar ali na rádio, fez a entrega dos jornais para seu irmão. O irmão fazia esse trabalho todos os dias bem cedo, mas naquele sábado ele não iria conseguir e pediu para seu irmão mais novo ir entregar os jornais com a bicicleta daquela barra forte que ao andar nela parecia que estava conduzindo uma estrutura inteira de ferro. Era tanto jornal que ele não teve força para entregar todos. Principalmente depois de chagar numa casa e ter sido mordido na canela pelo cachorro da casa, que veio lentamente até ele, sem latir e com o rabo balançando e de repente lhe deu uma mordida que deixou um furo na perna. Rapidamente veio uma mulher de dentro da casa para acudir o menino, que com aquele peso todo da bicicleta enorme e uma pilha de jornais, já estava chorando. Ela passou álcool e pediu desculpa. O menino levantou a bicicleta e seguiu. Ele lembrava que aquele era um dia nublado e com uma chuva constante e um pouco frio. Era preciso cuidar para não molhar os jornais.

Enquanto o locutor lia os jornais no estúdio tomava o seu chimarrão e acendia o primeiro cigarro. Ele fumava a manhã toda de maneira que as vezes o estúdio ficava quase tapado de fumaça. A divisão do estúdio e da sonoplastia era feita por três vidros separava. Quando era hora do início do programa o sonoplasta largava a abertura do programa e em seguida o fundo musical. Quando passava o microfone para o locutor, este sabia que o microfone estava ligado porque acendia uma lâmpada vermelha que ficava dentro de uma caixinha de madeira com um pequeno vidro quadrado na frente. Tinha uma caixinha dessas em três lugares na rádio: uma acima do vidro que separava a sonoplastia do estúdio; outra abaixo do vidro, dentro do estúdio e na frente do locutor para que ele pudesse ver quando o microfone estivesse aberto ou não; e a outra caixinha ficava no lado de fora da porta do estúdio para avisar as pessoas que chegavam na portaria da rádio e também os que ali trabalhavam, que não poderiam abrir a porta, pois o microfone estava aberto. Abrir a porta do estúdio quando a lâmpada estivesse aberta e o locutor falando só poderia ser feito em caso de urgência para levar algum aviso para o locutor falar na hora, pois poderia tirar a concentração do locutor que estava falando ou mesmo fazer ruídos que seriam percebidos pelos ouvintes com seus aparelhos receptores ligados. O

sonoplasta que era apaixonado pelo seu trabalho, desenvolvia criatividade na profissão sabia como entrar no estúdio sem fazer barulho. Mas tinha um locutor, redator e noticiarista, que o amedrontava. Ele entrava no estúdio na hora do correspondente de notícias que era de hora em hora, não olhava para o sonoplasta. As 9h00min em ponto deveria largar a vinheta característica do correspondente e quase que ao mesmo tempo passar o microfone. Quando o tal locutor baixava a cabeça, era o momento de abrir o microfone. Coitado do sonoplasta se não abrisse o microfone no exato momento em que anunciava o correspondente ou caso esquecesse de abrir. Nesse caso era ele que trabalhava no mesmo horário do noticiarista locutor que várias vezes saiu aos berros do estúdio e destratou o sonoplasta das piores formas possíveis.

Mas aquilo foi o início no mundo do rádio. Sua família eram todos artistas. Seu pai e sua mãe eram cantores e músicos assim como seus outros três irmãos. Havia mais quatro irmãos por parte da mãe. Não eram artistas, mas estavam ligados ao mundo circense da mãe. Tanto é que um deles, artista de circo, era toureiro do circo. Quando abandonou a vida de circo foi morar com sua família no interior de uma pequena cidade, onde usou suas habilidades do circo para lidar com o gado do fazendeiro dono da propriedade. Narciso que trabalhou em rádio por muito tempo depois veio do meio artístico. Nasceu num circo e seus pais faziam uma dupla e se apresentavam em circo, em teatro, festivais, cinemas e em auditórios de rádio. Na época havia um programa radiofônico famoso muito concorrido e de grande audiência, ouvido em todo o sul do país. O programa se chamava O Grande Rodeio Coringa, da Rádio Farroupilha de Porto Alegre, RS. A dupla chegou a conhecer o famoso cantor gaúcho Teixeirinha, pelos corredores da rádio. Cantavam e encantavam ao ponto de muitos os compararem a uma dupla famosa sertaneja chamada Cascatinha e Inhana. É claro que tudo isso iria influenciar na vida dos filhos. Os dois filhos da dupla se tornaram artistas também, um da música e outro do rádio. No rádio AM conheceu muitas pessoas e teve muitas experiências nesse meio que era muito semelhante ao mundo do circo, do teatro e da música e ao parque de diversões. Certa vez, numa aula de Educação Física numa escola

pública estadual, disse à professora que quando crescesse, queria ser escritor de livros. Nem mesmo ele acreditava muito que isso poderia acontecer. Não era apenas esse o sonho dele. Quando lia revistinhas de quadrinhos que na maioria das vezes eram rasgadas e emprestadas, que seus conhecidos lhe emprestavam, alguns garotos de famílias com maiores posses e que tinham a condição de comprar todos os lançamentos de revistas em quadrinhos, entre elas Disney Especial, Pato Donald, Mickey e Pluto, Tex Willer, Zagor, Fantasma, Mandrake, Namor, Os Vingadores, e outros. Mas ele só poderia ler quando seus colegas e conhecidos emprestassem. E as vezes ninguém emprestava aquele número que dava sequência a história anterior, que Narciso não via hora de ler, pois era muita ansiedade para ler a continuação da história. A janela do mundo era pelos quadrinhos, pelo rádio e também pelas novidades que eram as produções se séries e filmes norte- americanos que assistia de vez em quando pela televisão preto e branco de vizinhos e amigos. O que os filmes, séries e novelas faziam era iludir sua cabeça, pois desejava se tornar ator de Hollywood, de onde vinham os sonhos que adentravam as cabeças das crianças e pré-adolescentes. Seus heróis da televisão estavam em filmes como O Homem de Seis Milhões de Dólares, o Planeta dos Macacos a série, O Incrível Hulk a série, onde David Banner ia embora com sua mochila de mão no final de todos os capítulos da série e nunca resolvia seu problema. Assim não poderia ficar muito tempo numa cidade porque precisava proteger sua identidade. O sentimento de tristeza é que ele nunca conseguia resolver o problema de sua vida, que era achar uma cura para aquilo que ele considerava um problema, se transformar no Hulk quando ficasse zangado.

Ele não perdia um capítulo da série que passava na televisão nos sábados à tarde depois do Festival Jerry Lewis. Todo sábado a alegria era estar na frente da televisão preto e branco com aquele tubo enorme e feita de madeira, assistindo primeiro o grande comediante norte-americano Jerry Lewis e depois a série do Incrível Hulk. Quando isso acontecia, era pacote completo da alegria do final de semana. Era uma grande programação. É claro que para que isso acontecesse era preciso toda uma preparação já no meio da semana. Assistir algo no final de semana exigia se preparar durante a semana. Essa preparação era falar com os pais se era possível assistir tal programa na televisão no sábado ou no domingo. As vezes dava certo o pacote completo. Mas as vezes acontecia de estar tudo certo e a coisa mudar no sábado de manhã. Era preciso saber se os pais estariam em casa ou não. Ainda tinha o problema do tempo. Se chovesse e tivesse raios e trovões a televisão caia fora do ar e era só os chuviscos. Lá se ia a alegria de assistir o filme e o novo capítulo do Hulk. O mundo nessa época era explodia vontade de produzir

arte, teatro e música, e tinha como pano de fundo a Guerra Fria, assim chamada pela oposição de duas superpotências nucleares, Estados Unidos de um lado e União Soviética do outro. Enquanto as duas disputavam o planeta palmo a palmo a arte e a vida jovem acontecia com muita energia. Era também um mundo que aflorava criatividade, arte, sonho de um futuro melhor. Era nessa época que a discoteca, um estilo de músicas dos anos 70 explodiam nas pistas, onde os jovens dos anos 70 e início dos 80 dançavam sem parar. Tudo aquilo trazia para a imaginação do adolescente, viver aventuras: sonho, um mundo de liberdade, de consumo das melhores roupas, tênis, cinema, emoção, numa época em que até propaganda de cigarro prometia o sonho. Lembrando que na época era permitido propagando de cigarros na televisão ou qualquer outro ponto de divulgação. As emissoras de rádio AM principalmente eram as porta vozes das músicas que embalavam as pistas. A principal delas era a Rádio Mundial do Rio de Janeiro, que tocava os maiores sucessos internacionais de grandes bandas e artistas da época. A rádio tocava uma música atrás da outra, vinte e quatro horas por dia. O locutor comentava o compositor, o cantor e falava um pouco da música e dê-lhe música. Era a febre dos adolescentes, ouvir essa rádio de madrugada com o radinho de pilha na cabeceira da cama.

A rádio AM era muito romântica. O irmão mais tinha um radinho de pilha e ouvia à noite as rádios AM de São Paulo e Rio de Janeiro. Lá por volta de nove horas da noite ele lhe chamava para vir ao seu quarto, pois estava começando o programa de comédia de muito sucesso e audiência na época, A Turma da Mare Mansa. A Turma da Mare Mansa ia ao ar na Super Rádio Tupi. Era a diversão dos dois jovens irmãos todas as noites, pois não tinham aparelho de televisão. Aliás, poucas famílias tinham no povoado. Quando havia um filme ou um jogo de futebol importante eles iam na casa de amigos assistir. Foi uma época que uma ou duas pessoas do povoado adquiriram um aparelho de tevê a cores. As poucas que haviam ali era em preto e branco. Às vezes, para incrementar e fazer de conta que era colorida, algumas pessoas compravam primeiro um plástico com duas cores, vermelho e verde e depois, algo mais aperfeiçoado, uma tela que encaixava na frente da tevê com três cores, verde, vermelho e marrom. Então o divertido era assistir numa dessas tevês que dava um certo status para a família que tivesse tevê em casa. Então, o rádio era a diversão, A Turma da Mare Mansa, programa de comedia que tinha os maiores comediantes do Brasil, que depois foram para a televisão, era que divertia, os fazia dar risadas longas noite adentro. Quem passou pela infância e adolescência na passagem dos anos 70 para os anos 80, viveu muitas vidas, muitas emoções, muitas possibilidades. Um abraço caro leitor e até a próxima.

Professor Pesquisador em Chapecó e membro da ACHE Associação Chapecoense de Escritores
E-mail [email protected].

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