
Confira a coluna da My Psi desta terça-feira (09), com a Psicóloga Maikeli Coppi;
Eu sou psicóloga e vejo muito conteúdo dizendo como um relacionamento ideal deve ser. E, no meio disso tudo, parece que qualquer desconforto virou sinal de que a relação está errada. Mas a realidade é bem diferente.
É natural e saudável que existam conflitos. Afinal, são duas pessoas diferentes convivendo, com histórias, opiniões e necessidades diferentes. Elas não vão concordar em tudo. A diferença é que, em uma relação saudável, o conflito tem um objetivo: encontrar um caminho em comum. Não é provar quem está certo, fazer o outro sofrer ou vencer uma discussão. Porque quando um ganha e o outro perde, alguém acaba saindo machucado, e isso desgasta a relação aos poucos.
Inclusive, relacionamentos sem conflitos não são necessariamente relacionamentos saudáveis. Muitas vezes, isso significa apenas que os problemas estão sendo empurrados para debaixo do tapete.
Também é normal existir uma certa dependência emocional. Você escolheu construir uma vida ao lado daquela pessoa, então é natural que ela se torne alguém importante, alguém com quem você conta, compartilha planos e busca apoio. O problema é depositar todas as suas necessidades no outro. Não é saudável que uma única pessoa seja responsável por toda sua regulação emocional, por toda sua felicidade e por todas as suas necessidades de conexão.
Outra coisa que pouca gente fala é que, em relacionamentos longos, nem sempre os dois vão estar na mesma fase da vida. Às vezes um está focado na carreira enquanto o outro está priorizando outra área. Às vezes um está mais motivado para mudanças do que o outro. E isso não significa falta de amor. Por isso é tão importante entender o espaço do eu, do tu e do nós, encontrando um equilíbrio entre a individualidade de cada um e o espaço que pertence ao casal.
O básico para uma relação funcionar continua sendo muito simples: valores parecidos, planos de futuro compatíveis, respeito e admiração. Sem isso, o resto fica muito mais difícil.
E sim, o ciúme pode existir. Ciúme é uma emoção humana. Mas ele precisa ser conversado e trabalhado. Se a sua insegurança nasce dentro de você, não dá para simplesmente colocá-la no colo do parceiro e esperar que ele resolva. O outro pode acolher, mas a responsabilidade de lidar com essa emoção também é sua.
Vocês também não precisam concordar com tudo. Aliás, não vão. Mas é importante que exista respeito pelas diferenças e disposição para compreender o ponto de vista do outro, mesmo quando ele não é igual ao seu.
E sim, às vezes você vai abrir mão de alguma coisa pela relação. Assim como, em outros momentos, o outro vai abrir mão por você. Porque se relacionar também é fazer escolhas. E algumas dessas escolhas envolvem considerar o impacto que nossas decisões têm sobre quem está ao nosso lado.
Se você vive uma relação tranquila, em algum momento o tédio vai aparecer. Relacionamentos saudáveis não são feitos de grandes emoções o tempo inteiro. E isso é diferente de acomodação.
Talvez seja justamente isso que as redes sociais mais confundem. Elas nos vendem a ideia de que a pessoa certa nunca vai te frustrar, nunca vai te decepcionar e nunca vai te fazer passar por situações difíceis. Só que relacionamentos reais acontecem entre seres humanos. E seres humanos falham.
No fim das contas, todas essas regras que circulam por aí acabam reforçando a ideia de que ninguém é bom o suficiente. Que, se não for uma história de filme romântico, não vale a pena. Mas relacionamentos não são sustentados por perfeição. São sustentados pela escolha consciente de duas pessoas que sabem o que querem construir e que estão dispostas a fazer o necessário para sustentar essa escolha ao longo do tempo.







