
Na noite desta quinta-feira (14), Luiz Lemos Leite, bancário e advogado de formação que trabalhou no gabinete do ex-presidente Castello Branco durante a criação do Banco Central do Brasil, entre dezembro de 1964, que foi a sanção da lei, e abril de 1965, que foi o início efetivo das atividades da instituição, chegou em Chapecó para palestrar no evento “Café com o Leite”, no Pier 12, na manhã de sexta-feira (15).
Luiz tem 97 anos de idade e é fundador e presidente da Associação Nacional de Fomento Comercial, criada em 1981. Leite possui 75 anos de experiência no setor da economia, e nesta entrevista, comenta um pouco dos seus principais feitos na carreira e a importância do fomento comercial:
André: Como foi para o senhor ter a experiência de, dentro do gabinete presidencial, auxiliar a fundação de um órgão de controle tão importante quanto o Banco Central?
Leite: Eu era funcionário do Banco do Brasil, Já formado em Direito, fui para Brasília em 1962. Brasília tinha dois anos. E lá então, em 1964, os militares solicitaram ao Banco do Brasil colocar à disposição um funcionário. Eu já era formado em Direito, eles precisavam de alguém com certo grau de conhecimento, e eu fui escolhido. E lá então, chegando, me apresentei no Palácio do Planalto, e quando eu me apresentei, me disseram que minha missão era organizar o gabinete do Presidente da República. Tinha carta branca, porque o Presidente não tinha funcionário, precisava de gente nova de toda parte. No gabinete, eu ganhava o mesmo salário que ganhava no Banco do Brasil, mais uma gratificação da presidência, de acordo com o cargo que eu tinha ocupado lá dentro. Comecei a trabalhar, levei mais duas funcionárias do banco para trabalhar comigo, e a maioria que estava lá optou para retornar por órgão de origem. Para mim foi muito bom, pois pude trabalhar à vontade. E um belo dia, Castello Branco me chama e diz: “Eu sei que o senhor é do Banco do Brasil, me diga uma coisa, por que nós não temos o Banco Central?”. Eu respondi: “Presidente, é uma história longa, Vou perder muito tempo em contar para o senhor. Agora, sempre houve uma oposição muito grande na criação do Banco Central. Inclusive, o próprio Banco do Brasil é contra, porque o BB exerce funções de autoridade monetária”. Para resumir a história, em 1946, o ex-presidente Eurico Gaspar Dutra, que substituiu Getúlio Vargas, mandou para a Câmara dos Deputados um projeto de lei propondo a criação do Banco Central. Castello Branco estava com um bloquinho na mão e ele anotou: “Onde é que anda o projeto de lei?”, ele perguntou. “Presidente, está na Câmara dos Deputados”, respondi. “Hoje vou pedir para o ministro Roberto Campos que faça o levantamento”, determinou o ex-presidente. Imediatamente foi providenciado um ofício pedindo, então, que remetesse para a presidência os relatórios que haviam. Dias depois, uma pilha de dossiês empoeirados, amarrados com barbantes, rasgados, chegou no gabinete. Fiz para o ministro Campos um breve relatório. Ele então chegou e disse, “olha, agora o presidente quer urgência. Vou entrar em contato com o ministro Otávio Gouveia de Bulhões, da Fazenda, para a gente elaborar um novo projeto”. Isso foi em julho de 1964. Um mês e pouco depois, os dois chegaram lá na presidência e levaram para Castello Branco o projeto da lei que está aí hoje. O presidente leu e tal, discutiu, conversou e assinou o encaminhamento: “Senhor presidente da Câmara, estipulo o prazo de 90 dias para sancionar esta lei”. Então, no dia 31 de dezembro de 1964, foi sancionada a lei que criou o Banco Central. Essa lei estipulou que o Banco Central começaria a operar 90 dias depois. 90 dias depois é 1º de abril! Eu tenho, uma cópia do balanço de abertura do Banco Central. Quem assinou o balanço foi o chefe do departamento administrativo, Lourenço Guimarães Monteiro. Eu fui adjunto dele depois. Aí começou a história. Começamos a organizar o Banco Central. Veio a lei depois que criou o mercado de capitais, em julho de 1965, e foram criados os bancos de investimento.
André: Depois dessa experiência, houve 14 anos que o senhor trabalhou como diretor do Banco Central, até 1981. Como foi essa experiência dos primeiros anos já com o banco consolidado?
Leite: Foi uma novidade no Brasil. Nós tínhamos uma equipe de primeira linha, muito excelente. Fizemos um concurso logo em 1966, o primeiro concurso do Banco Central, e montamos uma equipe que era de referência internacional. Infelizmente, agora, nesse último episódio do escândalo que nós estamos vivendo do Banco Master, foram envolvidos dois funcionários, um que foi até diretor. Mas a tradição do banco é de muito rigor, de muita ética, de muito trabalho. Isso tudo nós conseguimos implantar no momento que construímos o banco. Então, é o legado que eu deixei, juntamente com outros companheiros, para essa grande organização que é o Banco Central.
André: Depois dessa experiência do Banco Central, veio a ideia da Associação Nacional de Fomento Comercial e uma trajetória que já tem 45 anos. O quanto que é importante, principalmente para uma economia em desenvolvimento e que está em diversificação, como a do Oeste Catarinense, a questão do fomento comercial?
Leite: O fomento comercial também surgiu dentro do Banco Central. Nós criamos o mercado de capitais, foram constituídos os bancos de investimento, todos os bancos comerciais pediram ao Banco Central carta patente de banco de investimento, e foi feita a regulamentação pelo Conselho Monetário. Eu era adjunto do inspetor-geral, ainda não era diretor do BC na época. Ele chegou e me disse: “Vamos fazer um teste, como é que funciona o banco de investimento”. A gente não tinha nenhuma experiência nisso, e escolhemos o Banco Bandeirante de Investimento em São Paulo para fazer a auditoria. O nosso inspetor chegou lá e pediu o balancete do dia 31 de maio de 1968. E quando o inspetor viu aquele balancete rasurado numa rubrica do ativo, o financiamento de capital de giro não constava no ativo, estava rasurado, colocaram com a datilografia o “X” em cima, e escreveram “factoring”. Aí o inspetor falou “O que é isso? Como é que o senhor, contador, assinou um balancete rasurado para o Banco Central?” Coitado do contador, não sabia onde meter a cara. Então foi o presidente que mandou cumprir a ordem e tal. Fui para Brasília e coube a minha examinar o caso, em 1968. Então, o Banco Comercial não podia mais operar, e fazer desconto, porque estava sem limite, então transferia as duplicatas para o Banco de Bandeirante. O Banco de Investimento não pode descontar a duplicata. Então, o presidente do Banco Bandeirante disse “bota factoring, a gente vai enrolando o Banco Central”, e deu azar desse caso cair na minha mão.
O que é a palavra factoring? Factoring é uma palavra de origem latina. Facto, factores, terceira declinação latina. Quer dizer agente comercial, em português. Quando veio a colonização inglesa na América, em 1750, pequenas indústrias se desenvolveram no território que estava sendo colonizado, de têxtil. Os ingleses colocaram um “factor”, um consultor, para dar um apoio ao desenvolvimento desse setor. Então, eles eram chamados “Cotton Factors”, consultores do algodão. E a coisa evoluiu. Veio a independência americana, em 1776, e pouco depois, em 1808, em Nova Iorque, um “factor” muito rico, que já prestava consultoria a um grupo grande de pequenas indústrias têxtil, resolveu evoluir a função: “Eu seleciono os compradores, os sacados dessa mercadoria, do produto da indústria têxtil. Aqueles que têm boa liquidez, são bons pagadores, eu autorizo vender. Eu vou comprar naqueles que eu aprovo o limite. Quem tem boa liquidez da operação, eu vou comprar os direitos”. Ele associou a consultoria que ele fazia a compra dos direitos das vendas. Nesse exato momento, surgiu o “facto”, e deram o nome dessa operação de “factoring”. Desde 1968, quando eu comecei a estudar o “facto” no mundo inteiro, percebi que já estava progredindo muito a atividade nessa ocasião. A atividade começou a se desenvolver fora dos Estados Unidos a partir de 1950. Até então, estava restrito aos Estados Unidos. E aí houve uma empresa de factory muito grande nos Estados Unidos, chamada Walter Heller, que se associou ao governo para a execução do plano Marshall, que era o plano de recuperação da Europa após a 2ª Guerra Mundial. Então, essa empresa de factory criou 25 empresas na Europa, para dar apoio à recuperação da Europa. Aí eu pensei: quando eu me aposentar, eu vou trabalhar, não vou ficar em casa, vou fazer factoring no Brasil”. Traduzi então a palavra “factory”, mas no latim, para “fomento comercial”. Factor vem do verbo “factoring”, que quer dizer fazer, fomentar. Eu também tive a experiência do leasing. Quando surgiu o leasing em 1968, tinha que fazer a lei. Então, eu tinha que dar uma nomenclatura em português. Então, eu criei o termo “arrendamento mercantil”. Com base nessa experiência, foi feito o fomento comercial, e comecei essa longa caminhada de 45 anos, que hoje, para vocês terem uma ideia, em 2025 fechamos o ano com um movimento de quase R$ 300 bilhões em fomento comercial no país, apoiando pequenas e médias empresas. O fomento que nós começamos há 45 anos atrás evoluiu com a expansão dos meios de pagamento, surgiram os fundos de investimento, os direitos creditórios, as securitizadoras, que estão hoje em maior progresso, e estão dominando. Hoje o mercado de crédito possui 70% de tradicionais operações bancárias e 30% de operações do mercado de capitais. Os próprios bancos estão entrando nessa, e estão ficando para trás.






