
O dado mais recente do IBC-Br escancara uma contradição incômoda para o governo. A atividade econômica até cresceu cerca de 2,5% no acumulado de 12 meses, mas esse resultado tem um motor quase exclusivo: o agronegócio, que avançou perto de 13% no mesmo período. Sem o campo, o crescimento teria sido muito menor. Em outras palavras, o país cresce apesar do governo — não por causa dele.
O agro fez a sua parte. Produziu mais, exportou mais, gerou renda e compensou a fraqueza dos demais setores. Indústria e serviços, juntos, mal passaram de algo próximo a 2% no acumulado anual. No fechamento do ano, o sinal foi ainda mais claro: em dezembro, o IBC-Br caiu cerca de 0,2% no mês, mesmo com a agropecuária crescendo. Quando se exclui o agro do cálculo, a queda foi maior. Isso não é detalhe técnico; é sintoma de uma economia urbana e industrial perdendo fôlego.
O problema é que o governo insiste em vender esse número como prova de sucesso geral. Não é. É concentração de crescimento. Um país do tamanho do Brasil não pode depender de um único setor para sustentar o resultado agregado. Quando isso acontece, o risco sistêmico aumenta. Basta uma quebra de safra, um choque climático ou um problema sanitário para o castelo balançar. E o governo sabe disso, mas prefere a propaganda ao diagnóstico.
Enquanto o agro entrega dois dígitos, a política econômica cria obstáculos para quem está fora da porteira. Juros elevados por mais tempo, insegurança fiscal, aumento recorrente de gastos correntes e sinalizações confusas sobre impostos travam investimento e consumo. O resultado aparece nos números: serviços patinando, indústria andando de lado e o emprego urbano sentindo a desaceleração. A conta chega em forma de renda menor, consumo fraco e arrecadação instável.
Há também um efeito enganoso no debate público. O crescimento puxado pelo agro mascara a fragilidade estrutural do restante da economia. Sem o campo, o avanço anual ficaria perto de 1,8%. Isso muda completamente a leitura. Mostra que o governo não conseguiu criar um ambiente favorável para espalhar o crescimento. Ao contrário, concentra riscos e terceiriza o desempenho para quem produz apesar do Estado, não graças a ele.
O mais grave é a complacência. Com o agro segurando o resultado, adiam-se reformas, ignora-se a necessidade de disciplina fiscal e normaliza-se a ideia de que basta “deixar o campo trabalhar”. Não basta. O Brasil precisa de indústria competitiva, serviços dinâmicos, investimento privado e previsibilidade. Nada disso floresce em um ambiente de improviso, discurso fácil e contas públicas pressionadas.
O IBC-Br deixa um recado duro, mas honesto: o agro salvou o número; o governo não entregou o resto. Se a política econômica continuar apostando na sorte climática e na resiliência do produtor rural, o crescimento seguirá frágil, concentrado e vulnerável. E quando o campo não conseguir carregar tudo sozinho, não haverá manchete otimista que esconda a realidade.






