
A possibilidade de um ataque militar dos Estados Unidos ao Irã, ventilada pela imprensa internacional, já é suficiente para mexer com mercados, expectativas e preços — mesmo sem um único disparo confirmado. Em economia, o risco costuma ser precificado antes do fato. E, quando o tema é Oriente Médio e petróleo, o efeito costuma ser rápido e global.
O primeiro impacto aparece no barril. O simples aumento da tensão geopolítica eleva o chamado “prêmio de risco”, empurrando o preço do petróleo para cima. Em poucos dias, o barril já oscilou para a faixa de 65 a 70 dólares, com analistas projetando cenários acima de 80 dólares caso o conflito se confirme ou se agrave. Em hipóteses mais extremas, com bloqueio de rotas estratégicas, não se descarta a volta a patamares próximos ou superiores a 100 dólares.
O motivo é conhecido: cerca de um quinto de todo o petróleo consumido no mundo passa por um estreito estratégico da região. Qualquer ameaça à circulação ali não afeta apenas um país produtor, mas todo o sistema global de energia. Não é uma crise local; é um choque de oferta com alcance mundial.
Do barril ao tanque do carro, o caminho é curto. Combustíveis acompanham o mercado internacional, com algum atraso. Quando o petróleo sobe, gasolina e diesel seguem o movimento. No Brasil, mesmo com produção interna relevante, os preços ainda refletem a dinâmica externa. Em crises anteriores, bastaram poucas semanas para que aumentos internacionais chegassem às bombas, pressionando o bolso de motoristas, transportadoras e empresas.
E é aí que a inflação entra em cena. Combustível mais caro não afeta apenas quem dirige. Ele encarece o frete, a logística, o transporte público e, por consequência, os alimentos e bens de consumo. Um choque de energia tende a se espalhar por toda a cadeia produtiva. Em cenários de alta prolongada do petróleo, economistas estimam impactos que podem adicionar até um ponto percentual à inflação anual, dependendo da intensidade e da duração da crise.
Esse efeito colateral é especialmente sensível em economias que ainda lutam para manter a inflação sob controle. Juros tendem a ficar mais altos por mais tempo, o crédito encarece e o crescimento desacelera. Ou seja, uma decisão militar tomada a milhares de quilômetros pode resultar em prestações mais caras, comida mais cara e menos fôlego para investimentos.
Vale destacar um ponto central: mesmo que a invasão não ocorra neste fim de semana, o dano parcial já está feito. O mercado trabalha com expectativas. O risco entrou no preço. Investidores buscam proteção, moedas de países emergentes tendem a se desvalorizar e o custo da energia sobe antes da confirmação dos fatos.
Em síntese, a pergunta não é apenas se os Estados Unidos vão ou não atacar o Irã. A pergunta mais relevante é quanto o mundo já começou a pagar por essa possibilidade. E, como quase sempre acontece em crises geopolíticas, a conta tende a chegar primeiro no posto de combustível e, logo depois, no supermercado.






