
Durante décadas, repetimos um gesto quase automático: dar a uma criança um cofrinho em forma de porco e dizer que ali começa a educação financeira. Parece inofensivo. É simples. É “bonitinho”. Mas talvez esse pequeno objeto seja um dos símbolos mais poderosos — e menos questionados — da forma distorcida como aprendemos a nos relacionar com o dinheiro.
O porquinho não é um símbolo neutro. Culturalmente, ele carrega associações fortes: sujeira, resto, lama, excesso, animal de corte. Não é um bicho ligado à construção, ao crescimento ou à multiplicação. É um animal que engorda até o abate. E, curiosamente, foi exatamente ele que escolhemos para representar o ato de guardar dinheiro.
A mensagem implícita é clara, ainda que nunca dita em voz alta. Dinheiro, desde cedo, é algo que se junta aos poucos, lentamente, de forma quase penosa. Nada de crescimento inteligente ou circulação produtiva. É acúmulo linear, parado, silencioso. “De grão em grão”, como se repetir isso fosse virtude e não limitação.
Mas o símbolo vai além. Para acessar o dinheiro guardado no porquinho, é preciso quebrá-lo. Jogar no chão. Fazer barulho. Produzir sujeira. Destruir. Não há abertura, escolha ou fluidez. Há ruptura. O cérebro aprende, sem perceber, que usar o dinheiro gera culpa, dor e perda. Guardar é moralmente correto; gastar, quase um pecado que exige sacrifício.
Depois, adultos, nos perguntamos por que tantas pessoas têm dificuldade em poupar, investir ou gastar sem culpa. Buscamos respostas em cursos, livros, gurus e fórmulas milagrosas. Mas raramente paramos para olhar para trás e perguntar: o que nos ensinaram sobre dinheiro quando éramos crianças? Que imagens foram repetidas? Que histórias foram normalizadas?
Educação financeira não começa com planilha, taxa ou investimento. Começa com símbolos, metáforas e narrativas. E muitas dessas narrativas não foram criadas para emancipar, mas para domesticar. Ensinar escassez, medo e controle é mais simples do que ensinar autonomia, pensamento crítico e responsabilidade econômica.
O mais inquietante não é o porquinho em si. É o fato de quase ninguém nunca ter questionado isso. Se um brinquedo aparentemente inocente carrega tantas mensagens ocultas, quantas outras crenças seguimos reproduzindo sem perceber? Quantas ideias sobre trabalho, sucesso, dinheiro, consumo e fracasso foram implantadas antes mesmo de termos consciência?
Talvez o problema nunca tenha sido “falta de educação financeira”. Talvez tenhamos recebido educação demais — só que baseada em símbolos errados. E enquanto continuarmos tratando essas narrativas como naturais, seguiremos tentando resolver problemas complexos com respostas superficiais.
Questionar o porquinho não é sobre um objeto. É sobre aprender a questionar tudo aquilo que nos disseram que era “normal” demais para ser discutido.







