
Há tragédias que o tempo não apaga. A da Boate Kiss, em Santa Maria, é uma delas. Hoje, 13 anos depois, lembrar não é um gesto de nostalgia ou luto privado. É um dever público.
Na madrugada de 27 de janeiro de 2013, 242 jovens perderam a vida em um incêndio que não deveria ter acontecido. Não foi um acidente imprevisível. Foi a soma de escolhas erradas, omissões reiteradas e uma cultura institucional que tratou a segurança como detalhe burocrático. A morte veio, sobretudo, pela fumaça tóxica — invisível, rápida, letal — produzida por materiais inadequados, em um ambiente superlotado, com rotas de fuga precárias e falhas de fiscalização.
A tragédia da Kiss expôs algo mais profundo do que a falência de um estabelecimento. Revelou a fragilidade de um sistema inteiro: licenças concedidas sem rigor, vistorias formais, normas conhecidas e descumpridas, responsabilidades diluídas entre empresários, agentes públicos e órgãos de controle. Quando todos “assinam”, ninguém responde. Até que o pior acontece.
Treze anos depois, é preciso perguntar: aprendemos? Houve avanços legais e normativos. A chamada “Lei Kiss” trouxe regras mais claras para prevenção de incêndios e pânico. Corpos de bombeiros ganharam mais protagonismo técnico. Mas a pergunta incômoda permanece: a cultura mudou ou apenas o papel?
A memória da Kiss não pode ser ritualizada apenas em datas redondas, com discursos comovidos e promessas genéricas. Memória, em sociedades maduras, vira política pública consistente. Vira fiscalização permanente. Vira intolerância ao improviso. Vira responsabilidade pessoal de quem assina um alvará, aprova um projeto ou abre as portas para centenas de pessoas.
Há também uma dimensão ética que não pode ser esquecida. Cada jovem que morreu confiou — no local, nos organizadores, no Estado. Essa confiança foi quebrada. Lembrar a Kiss é reafirmar que vidas não são números, que lucro não pode se sobrepor à segurança e que negligência mata, mesmo sem intenção direta.
Treze anos depois, a dor das famílias segue presente. E a sociedade só honra essas vidas quando transforma luto em aprendizado e indignação em vigilância cívica. Esquecer é permitir que a próxima tragédia esteja apenas aguardando o mesmo roteiro: descaso, pressa, silêncio.
A Boate Kiss não é apenas uma lembrança do passado. É um alerta permanente. E alertas ignorados cobram um preço alto demais.






