
A disputa pelo Governo de Santa Catarina em 2026 ainda não começou oficialmente, mas já está em curso na prática. As articulações em torno do nome de Gelson Merisio mostram que o tabuleiro político estadual entrou em fase de rearranjo antecipado, especialmente no campo da esquerda e da centro-esquerda, historicamente fragmentado no Estado.
Merisio não é um nome qualquer. Ex-presidente da Assembleia Legislativa, ex-deputado estadual e vencedor do primeiro turno da eleição de 2018, ele carrega um ativo raro na política catarinense: voto comprovado em escala estadual. Poucos políticos em Santa Catarina podem dizer que ultrapassaram a marca de um milhão de votos em uma eleição majoritária. Esse dado, por si só, explica por que seu nome volta a circular com força.
A possível mudança de legenda — entre o partido ao qual está filiado hoje e o Partido Socialista Brasileiro — não é detalhe secundário. Ela indica uma busca por reposicionamento estratégico: ocupar o espaço de um campo político que, apesar de relevante nacionalmente, nunca conseguiu se estruturar de forma competitiva e contínua em Santa Catarina. Aqui, a esquerda costuma chegar às eleições mais como reação do que como projeto.
Nesse contexto, o Partido dos Trabalhadores observa com atenção o cenário. O nome de Décio Lima, que alcançou cerca de 30% dos votos no segundo turno em 2022, surge como alternativa para uma disputa ao Senado. Trata-se de um capital eleitoral real, ainda que insuficiente para vencer o governo do Estado naquele momento. Mas eleições não se decidem apenas pelo passado: elas se constroem pela leitura correta do presente.
A eventual combinação de um candidato competitivo ao governo com um nome forte ao Senado sinaliza uma tentativa de coordenação inédita nesse campo político em Santa Catarina. Se isso se confirmará, ainda é cedo para afirmar. Mas o simples fato de a articulação existir já produz efeitos: provoca reações, reposiciona adversários e antecipa o debate público.
Há também um elemento simbólico relevante. Merisio é de Xanxerê, no Oeste catarinense, uma região frequentemente lembrada como base eleitoral, mas raramente protagonista no comando do Executivo estadual. A política catarinense, marcada por lideranças do litoral e do Vale do Itajaí, pode ser obrigada a olhar novamente para o Oeste não apenas como eleitor, mas como formulador de projeto político.
Nada disso garante vitória. Pré-candidaturas não são candidaturas, e alianças desenhadas em janeiro costumam ser desfeitas até julho do ano eleitoral. Ainda assim, o movimento é real e merece atenção. Ele indica que 2026 não será uma eleição morna ou protocolar, mas um processo marcado por disputa de narrativas, tentativas de reorganização ideológica e, sobretudo, pela busca de nomes que consigam ir além das bolhas tradicionais.
Em Santa Catarina, onde o eleitor costuma ser pragmático e desconfiado de discursos genéricos, a eleição não se ganhará com rótulos, mas com projetos claros, credibilidade pessoal e capacidade de articulação. Merisio, Décio e seus aliados sabem disso. A pergunta que fica não é se a eleição já começou. Ela claramente começou. A questão é quem conseguirá transformar movimento em voto — e articulação em poder real.







