sexta-feira, janeiro 16, 2026
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Fan tokens: o torcedor brasileiro entre o engajamento e a especulação

Confira a coluna do professor Dr. Givanildo Silva

Prof. Givanildo Silva – Doutor em Ciências Contábeis e Administração.

O torcedor brasileiro sempre foi intenso. Vive o clube no rádio, na televisão, no estádio, na mesa do bar e, mais recentemente, nas redes sociais. Agora, esse vínculo emocional ganha uma nova camada: o torcedor que compra um fan token passa a carregar no bolso — ou melhor, no aplicativo — uma representação digital da sua paixão. O fenômeno cresce no Brasil e revela mudanças relevantes no comportamento dos torcedores e na própria lógica de relacionamento entre clubes e suas torcidas.

Os fan tokens são ativos digitais vinculados a clubes esportivos, que prometem algo além do consumo passivo do futebol. Em tese, permitem votar em decisões simbólicas, acessar experiências exclusivas e participar de ações de engajamento. Clubes de grande torcida, como o Flamengo, aderiram rapidamente a esse modelo, apoiados por plataformas como a Socios.com, construída sobre a infraestrutura da Chiliz. O discurso é claro: dar voz ao torcedor e aproximá-lo das decisões do clube.

Na prática, porém, o comportamento observado vai além do engajamento institucional. Muitos brasileiros passaram a tratar os fan tokens como ativos negociáveis, reagindo a rumores de contratações, resultados em campo e até crises políticas internas dos clubes. Quando uma possível volta de um jogador ganha destaque na imprensa, o token sobe. Quando o time perde ou enfrenta turbulência, o token cai. O torcer, tradicionalmente emocional, passa a dialogar com a lógica da especulação de curto prazo.

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Isso não é, necessariamente, um problema. O futebol sempre foi atravessado por dinheiro, apostas informais e expectativas de ganho simbólico. A novidade é a formalização desse comportamento em um ativo digital, acessível a qualquer pessoa com um celular. Para os clubes, abre-se uma nova fonte de receita e dados sobre sua base de torcedores. Para parte dos torcedores, surge a sensação de pertencimento ampliado. Para outros, a ilusão de que estão “investindo” no próprio clube.

Aqui está o ponto de atenção. Fan token não é ação, não é título de dívida e não garante participação real na gestão do clube. É um instrumento de engajamento, com valor altamente volátil e dependente de fatores emocionais e midiáticos. Quando tratado como investimento financeiro, carrega riscos elevados, especialmente em um país onde a educação financeira ainda é limitada e a paixão clubística costuma falar mais alto que a racionalidade.

O crescimento desse mercado no Brasil revela duas forças simultâneas. De um lado, clubes mais profissionalizados, buscando monetizar relacionamento e atenção. De outro, torcedores dispostos a experimentar novas formas de pertencimento, mesmo que isso signifique misturar amor ao clube com lógica de mercado. O desafio está em não vender engajamento como se fosse participação efetiva, nem tratar paixão como promessa de retorno financeiro.

Os fan tokens dizem menos sobre tecnologia e mais sobre comportamento. Mostram um torcedor que quer ser ouvido, participar, opinar — e, em alguns casos, ganhar com isso. Cabe aos clubes responsabilidade, transparência e limites claros. E aos torcedores, a consciência de que apoiar um time continua sendo, antes de tudo, um ato de identidade e afeto, não uma estratégia de investimento.

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