
Há países que exportam bens, serviços e cultura. O Irã, hoje, exporta instabilidade. O que se passa em Teerã deixou há muito tempo de ser um assunto doméstico e se transformou em um fator permanente de tensão internacional, com efeitos diretos sobre comércio, energia, diplomacia e segurança global.
Em 2026, o padrão se repete. Protestos internos são respondidos com repressão dura, controle de informação, bloqueio de internet e ameaças abertas a adversários externos. Sempre que o regime se sente pressionado por sua própria sociedade, reage criando inimigos fora de casa. É uma estratégia conhecida: deslocar o conflito para evitar o desgaste interno.
O problema é que essa lógica tem custo para o mundo. Ao flertar com a escalada militar, fechar temporariamente o espaço aéreo, tensionar rotas estratégicas e manter uma postura ambígua sobre seu programa nuclear, o Irã empurra outros países para medidas defensivas. Os Estados Unidos, por exemplo, voltaram a sinalizar sanções e tarifas como forma de pressão, reacendendo o debate sobre punições econômicas a quem mantém comércio com Teerã.
Nesse tabuleiro, até países distantes do conflito direto acabam envolvidos. O Brasil aparece como exemplo claro. Nosso comércio com o Irã é concentrado em alimentos, legítimo do ponto de vista econômico e legal. Ainda assim, passa a ser tratado como risco geopolítico, não por decisão brasileira, mas pela escolha do regime iraniano de se manter em confronto permanente com a comunidade internacional.
É preciso dizer com todas as letras: o problema não é o povo iraniano. Pelo contrário, são eles os principais prejudicados. O problema é um regime que usa a população como escudo político, sacrifica desenvolvimento interno e aceita isolar o país para preservar poder. Enquanto jovens iranianos pedem liberdade e melhores condições de vida, o Estado responde com polícia, censura e retórica de guerra.
O resultado é um círculo vicioso. Quanto mais repressão interna, maior a tensão externa. Quanto maior a tensão externa, mais sanções, isolamento e dificuldades econômicas. E quanto maior o isolamento, mais o regime reforça o discurso de inimigo estrangeiro para justificar seus próprios abusos.
Para o mundo, isso significa preços mais voláteis de energia, comércio internacional sob risco e cadeias produtivas expostas a decisões políticas imprevisíveis. Para países como o Brasil, significa ter de explicar, defender e eventualmente rever relações comerciais que, em condições normais, seriam apenas negócios.
O Irã poderia ser parte da solução em uma região estratégica. Poderia investir em integração econômica, estabilidade e cooperação. Mas escolhe, reiteradamente, o caminho da confrontação, da ameaça e do fechamento. Enquanto essa lógica prevalecer, o regime iraniano continuará sendo não apenas um problema interno, mas um fator de risco global — e cada nova crise apenas reforça essa evidência.
Não se trata de ideologia, nem de alinhamento automático a este ou àquele bloco. Trata-se de responsabilidade. E, hoje, o Irã mostra que não está disposto a exercê-la.







