
Durante décadas, a obesidade foi tratada como consequência exclusiva de escolhas inadequadas ou falta de disciplina. Esse entendimento, porém, não se sustenta diante do conhecimento científico atual. Hoje, a obesidade é reconhecida como uma doença crônica, multifatorial e recidivante, determinada por complexas interações entre fatores intrínsecos, como biologia e genética, aliada a fatores extrínsecos, como ambiente e comportamento.
Do ponto de vista fisiopatológico, o organismo humano possui sistemas altamente eficientes para manter suas reservas energéticas, controlados principalmente pelo sistema nervoso central. Hormônios como a leptina, responsável por sinalizar saciedade ao cérebro, a grelina, que estimula a fome, e a insulina, envolvida no armazenamento de energia, sofrem alterações importantes na obesidade. Em muitos pacientes ocorre resistência à leptina, fazendo com que o cérebro continue “pedindo comida” mesmo quando há excesso de gordura corporal.
Além disso, fatores genéticos exercem papel relevante: estudos mostram que uma parcela significativa da predisposição à obesidade é hereditária. Quando indivíduos biologicamente suscetíveis são expostos a ambientes obesogênicos — marcados por alimentos ultraprocessados, sedentarismo, privação de sono e estresse crônico — o risco de desenvolver obesidade aumenta de forma expressiva. Aqui devemos levar em conta a exposição dos nossos filhos, que são suscetíveis ao ambiente e cultura alimentar que criamos em casa.
Esses mecanismos ajudam a explicar por que dietas restritivas, isoladamente, costumam falhar a longo prazo. Após a perda de peso, o corpo responde reduzindo o gasto energético e aumentando os sinais de fome, favorecendo a recuperação do peso perdido. Esse fenômeno caracteriza a obesidade como uma condição crônica, e não como um problema pontual.
Para melhor entendermos a obesidade, abaixo alguns consensos e classificações científicas recentes sobre a obesidade, como doença crônica:
- A Commission on Clinical Obesity introduziu o conceito de obesidade clínica como uma doença sistêmica caracterizada por disfunção orgânica relacionada ao excesso de tecido adiposo, com impacto em múltiplos sistemas corporais e risco aumentado de doenças associadas, como diabetes tipo 2, doenças cardiovasculares e câncer.
- O termo Adiposity-Based Chronic Disease (ABCD), proposto por sociedades de endocrinologia, formaliza a obesidade como doença crônica baseada na fisiopatologia da adiposidade, evitando estigmas e focando no impacto metabólico e clínico.
- Diversas diretrizes internacionais e nacionais — incluindo uma Diretriz Brasileira de 2025 para manejo da obesidade e prevenção de doenças cardiovasculares — reconhecem a obesidade como condição clínica que requer avaliação de risco e tratamento individualizado, integrando nutrição, comportamento, atividade física e, quando indicado, intervenções farmacológicas ou cirúrgicas.
Tratamento moderno e o papel das “canetas emagrecedoras”
O manejo atual da obesidade vai além de recomendações genéricas. Ele inclui mudanças graduais de estilo de vida, acompanhamento comportamental e, em muitos casos, tratamento farmacológico baseado em evidência científica.
Nesse cenário, destacam-se as chamadas “canetas emagrecedoras”, medicamentos injetáveis que atuam em hormônios intestinais, como os agonistas do receptor do GLP-1. Essas terapias modulam centros cerebrais da fome e da saciedade, reduzem o apetite e melhoram parâmetros metabólicos, como glicemia e resistência à insulina.
Ensaios clínicos robustos demonstraram perda de peso clinicamente significativa e sustentada, além de benefícios cardiovasculares e hepáticos em grupos selecionados. Por isso, essas medicações passaram a integrar diretrizes nacionais e internacionais para o tratamento da obesidade.
É importante reforçar: não são soluções milagrosas, nem substituem hábitos saudáveis. Devem ser usadas com indicação médica, dentro de um plano individualizado e com acompanhamento contínuo — como qualquer tratamento de doença crônica.
Reconhecer a obesidade como doença crônica e utilizar terapias eficazes não é “facilitar”, e sim tratar uma doença e suas comorbidades associadas, que futuramente trarão problemas pessoais e de saúde pública.
Referências
Diretrizes da American Association of Clinical Endocrinology (AACE) e da European Association for the Study of Obesity (EASO);
The Lancet Diabetes & Endocrinology;
New England Journal of Medicine;
Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM).
Dr. Leonardo Hansen
Formado em Medicina pela Universidade Luterana do Brasil
Médico especialista em Medicina Interna pela Universidade Federal Fronteira Sul
Formado em Medicina em 2015, realizou sua especialização na área de Clínica Médica, atuando posteriormente no meio intra-hospitalar nas áreas de Internação, Unidade de Terapia Intensiva e Emergência
Reside em Chapecó e hoje tem foco em atendimentos ambulatoriais.
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