
Hoje (9), a Venezuela acordou com uma notícia que muitos tentam vender como histórica: a libertação de presos políticos. Para o professor e ex-militar do Exército venezuelano Alexander Aragol, que participou do programa Sala de Debates da Condá FM de quarta-feira (7), sobre a situação da Venezuela, não se pode negar que qualquer pessoa que deixe uma prisão injusta merece ser celebrada, mas a situação, para Aragol, não deveria causar tanta empolgação e elogios.
Conforme a Rede Bandeirantes de Rádio, a medida foi anunciada pelo presidente da Assembleia Nacional Venezuelana, Jorge Rodríguez, que classificou a decisão como um “gesto para consolidar a paz” na nação vizinha. Atualmente, estima-se que existam mais de mil pessoas detidas por motivações políticas em território venezuelano. Entre os nomes já libertados estão a ativista de direitos humanos Rocío San Miguel e os ex-vice-presidentes da Assembleia Nacional, Enrique Marquez e Juan Pablo Guanipa.
Para Aragol, liberdade não é um favor, não é uma concessão, e não é um gesto humanitário daqueles que estão no poder: “Liberdade é um direito que jamais deveria ter sido tirado. Libertar alguns presos políticos não apaga anos de perseguição, tortura, silêncio forçado, famílias destruídas e jovens ceifados. Não transforma os perpetradores em democratas, nem transforma um sistema repressivo em um sistema justo. Muito menos quando centenas de venezuelanos permanecem presos simplesmente por pensarem diferente”.
A mudança de postura do regime de Nicolás Maduro ocorre em meio a uma forte pressão diplomática. Segundo a análise de Amauri Chamorro, especialista em comunicação política, a decisão demonstra a tensão vivida pelo regime após ações diretas do governo dos Estados Unidos. Ele avalia que a mensagem externa recebida por Caracas é de que a obediência às normas internacionais é a única saída para evitar novas sanções.
Aragol afirma que não se pode falar de paz na Venezuela enquanto a repressão continuar sendo política de Estado: “Não podemos falar de reconciliação enquanto a justiça continuar sendo sequestrada. E não podemos pedir aplausos por devolver, pouco a pouco, o que jamais deveria ter sido tirado de nós. Celebro cada abraço que se repete hoje. Estou ao lado de cada família que respira aliviada. Mas não baixarei a guarda, não esquecerei e não serei complacente”.
Apesar das libertações, a realidade para quem vive fora das prisões continua marcada pela privação. Com o salário mínimo fixado em cerca de meio dólar, a maior parte da população não tem recursos próprios para comprar alimentos e depende inteiramente das cestas básicas distribuídas pelo Estado.
Para Aragol, a verdadeira vitória virá quando não houver um único preso político na Venezuela, quando a dissidência não for mais crime e quando a liberdade deixar de ser notícia e se tornar uma realidade cotidiana: “Até lá, seguimos em frente. Com memória, com dignidade e com a verdade diante de nós”, conclui.
Recadinhos
- “Morte ao ditador”. Os protestos contra o governo e a crise econômica no Irã se intensificaram nesta quinta-feira, atingindo mais de 110 cidades em todas as províncias, conforme a newsletter The News.
- Ontem (8), os integrantes do movimento colocaram fogo em diversos prédios públicos, incluindo o prédio do governo e o prédio da TV estatal local.
- A onda de insatisfação começou na última semana após a moeda local, o rial, atingir mínimas históricas e a inflação disparar para 40%, dificultando a compra de itens básicos pela população.
- Ativistas relatam que ao menos 45 pessoas já morreram nos confrontos, enquanto quase 2.300 foram presas. O governo tenta conter as manifestações, e até já desligou toda a internet do país para dificultar a mobilização.







