
Há quem ainda acredite que o crime organizado vive restrito aos becos e vielas. A megaoperação deflagrada no último dia 28 de agosto mostrou o contrário: o Primeiro Comando da Capital (PCC) está entranhado no coração pulsante da economia brasileira. Mais de 350 mandados, 1.400 agentes e bloqueios que superam a casa de R$ 1 bilhão revelam que não estamos diante de uma mera facção criminosa, mas de um conglomerado econômico paralelo, sofisticado, travestido de legalidade.
A operação Carbono Oculto, somada às ações Quasar e Tank, escancarou o mapa da infiltração: postos de combustíveis, usinas de etanol, frotas de caminhões, fazendas, fintechs e fundos de investimento na Avenida Faria Lima. O crime deixou de ser apenas “do gueto” e passou a usar notas fiscais, derivativos e fundos multimercado como armas de lavagem. Um assalto em câmera lenta contra o sistema financeiro, bem mais nocivo do que a caricatura de bandidos armados.
O que assusta não é apenas o montante. Investigações apontam para uma movimentação de R$ 52 bilhões em quatro anos na cadeia de combustíveis, somados a outros R$ 23 bilhões em redes paralelas, e uma sonegação que chega a R$ 7,6 bilhões. A pergunta é inevitável: como tamanha engrenagem funcionou debaixo do nariz do Estado, dos bancos e dos reguladores?
A resposta, infelizmente, é incômoda. Enquanto a sociedade olha para a criminalidade pela ótica da violência urbana, o PCC construiu uma engenharia financeira comparável à de grupos empresariais globais. Criou fintechs que atuavam como bancos paralelos, usou fundos de investimento para disfarçar patrimônio, infiltrou-se no setor de combustíveis — um dos mais frágeis à corrupção fiscal — e se escondeu sob a capa da legalidade.
Isso coloca o Brasil diante de um dilema: não basta prender lideranças, é preciso cortar os tubos que irrigam o crime com dinheiro limpo. É necessário que Banco Central, CVM e Receita Federal tratem esse caso não como uma exceção, mas como um alerta sistêmico. Porque se o crime organizado consegue operar na Faria Lima, movimentando bilhões, o risco não é apenas de segurança pública, mas de credibilidade do mercado financeiro.
As consequências vão além da economia. O crime organizado que lava bilhões compra influência política, corrompe instituições e financia redes de violência. Sem atacar o fluxo de capital, continuaremos enxugando gelo: prendendo soldados na periferia enquanto os generais do crime brindam com champanhe em escritórios de luxo.
A operação trouxe esperança de que o Estado finalmente compreendeu onde está o nervo exposto. Mas este é apenas o primeiro capítulo. A sociedade precisa cobrar transparência: quais fundos foram usados? Quais fintechs se tornaram bancos paralelos? Quem fechou os olhos — por omissão ou conveniência?
Mais do que nunca, é hora de deixar de romantizar a Faria Lima como símbolo de modernidade. Se ela serve também de laranja dourada para o crime organizado, talvez precisemos admitir que o problema não está apenas nos morros ou nos presídios, mas no coração financeiro do país. E essa constatação dói mais do que qualquer manchete policial.