
Na última semana, a passagem de um ciclone-bomba pela região do Uruguai e do Rio Grande do Sul fez com que a atenção se voltasse novamente aos efeitos do El Niño. Apesar de o fenômeno estar associado a mudanças na circulação atmosférica e poder favorecer condições mais severas no Sul do Brasil, ele não é o responsável direto pela formação de cada ciclone ou tempestade.
Segundo o meteorologista Murilo Lopes, ciclones extratropicais são fenômenos comuns no Sul do Brasil, principalmente durante os períodos de transição entre as estações. O chamado ciclone-bomba ocorre quando um ciclone se intensifica rapidamente, com uma queda acentuada da pressão atmosférica.
No caso do sistema que passou recentemente pela região, o ciclone se formou sobre o Uruguai e avançou rapidamente em direção ao Oceano Atlântico. Por isso, os maiores impactos ficaram concentrados no Uruguai e no Rio Grande do Sul. Em Santa Catarina, os efeitos mais significativos estiveram relacionados à frente fria associada ao sistema.
“Não necessariamente esse evento de agora vai ser associado ao El Niño”, explica Murilo. De acordo com ele, o fenômeno pode contribuir para que situações como essa ocorram com maior frequência ao longo do ano, mas não é o responsável direto pela formação do ciclone.
“O El Niño é como um amplificador”, define o meteorologista
O fenômeno ocorre a milhares de quilômetros do Sul do Brasil, no Oceano Pacífico, e provoca alterações na circulação atmosférica. No Sul, seus efeitos são considerados indiretos, mas podem favorecer condições mais propícias para a ocorrência de sistemas meteorológicos intensos.
Com o El Niño, há maior transporte de umidade em direção ao Sul do Brasil, além de mudanças nos ventos e na atuação de sistemas meteorológicos. “Isso alimenta as tempestades que, tipicamente, já vão ocorrer entre o final do inverno e durante a primavera” , afirma.
Isso significa que fenômenos que já ocorrem normalmente na região, como frentes frias, ciclones e tempestades, podem encontrar condições mais favoráveis para se intensificar. Assim, aumenta o risco de episódios de chuva volumosa, granizo, vendavais e, em determinadas situações, tornados.
No Oeste de Santa Catarina, a influência também pode ser percebida. Segundo Murilo, a maior disponibilidade de umidade e a circulação atmosférica alterada favorecem um aumento nas condições para tempestades severas.
Fenômeno não causa diretamente cada tempestade
Apesar da influência do fenômeno, é importante diferenciar relação e causa direta. Uma frente fria, por exemplo, não é formada pelo El Niño. O fenômeno pode alterar sua trajetória, dificultar seu avanço para o Norte e contribuir para que ela tenha mais umidade disponível para produzir chuva e tempestades.
O mesmo vale para os ciclones. Eles podem ocorrer mesmo sem a presença do El Niño. A diferença é que, durante um episódio do fenômeno, a atmosfera pode apresentar condições mais favoráveis para que esses sistemas sejam mais frequentes ou intensos.
Por isso, não é correto afirmar que um ciclone ou tornado ocorreu “por causa do El Niño”. A influência do fenômeno acontece em uma escala maior, alterando as condições atmosféricas que favorecem a formação e intensificação de outros sistemas.
Mais chuva e temporais no horizonte
A tendência apontada pelo meteorologista é de um período com maior frequência de eventos de chuva e tempestades. O risco deve se estender pela primavera e continuar durante o verão.
Para Santa Catarina, uma das principais preocupações está relacionada à possibilidade de períodos de chuva mais persistentes e acumulados elevados. A atuação de frentes frias que tenham dificuldade para avançar pode favorecer a permanência da instabilidade sobre o Estado.
Ainda assim, Murilo reforça que não significa que haverá chuva ou temporais todos os dias, nem permite prever com meses de antecedência quando ocorrerá um evento extremo.
Previsão de fenômenos severos ocorre com poucos dias de antecedência
Embora os efeitos gerais do El Niño possam ser estudados com antecedência, a previsão de eventos específicos, como tempestades severas, tornados e grandes volumes de chuva, é mais limitada.
Segundo o meteorologista, situações extremas de precipitação podem ser identificadas com maior confiança quando faltam poucos dias para o evento. “O que a gente sabe é que vão ter chuvas acima da média durante todo o período restante de 2026. Agora, se nós estamos diante de uma situação muito extrema de precipitação, vamos conseguir ver isso com menos de uma semana de antecedência”.
Por isso, a recomendação é acompanhar as previsões atualizadas e os alertas emitidos pelos órgãos de meteorologia e pela Defesa Civil. O El Niño indica um cenário de maior risco, mas não determina sozinho quando ou onde um fenômeno severo irá acontecer.
Confira a previsão para os próximos dias
Quarta-feira (12): a chuva atinge todas as regiões do Rio Grande do Sul, com maior concentração no Centro, Sul e Leste do Estado. Os maiores volumes são esperados entre a Serra, os Vales, a Grande Porto Alegre e o Litoral Norte.
Quinta-feira (13): com o avanço de ar frio, a frente quente passa a atuar como frente fria. A chuva continua em grande parte do Rio Grande do Sul, com maiores volumes no Centro, Vales, Grande Porto Alegre, Sul da Serra e Litoral Norte.
Sexta-feira (14): ainda há possibilidade de chuva e garoa em pontos do Norte e Leste gaúcho. A instabilidade mais intensa se concentra em Santa Catarina, onde pode chover de forma moderada a forte. A chuva também atinge áreas do Paraná.
Sábado (15): a frente fica semi-estacionária, mantendo chuva em Santa Catarina, Oeste e Sul do Paraná e na Metade Norte do Rio Grande do Sul. Os maiores acumulados são esperados no Leste catarinense.
Domingo (16): a instabilidade ganha força novamente. A frente recua para o Rio Grande do Sul como frente quente, com chuva principalmente no Oeste, Centro e Sul do Estado, podendo ser localmente forte.
Segunda (17) e terça-feira (18): a previsão indica chuva forte a intensa e altos volumes no Oeste e Sul do Rio Grande do Sul, além de áreas do Uruguai. Em outras regiões gaúchas, a chuva deve ocorrer, mas com volumes menores na maioria dos locais.
As informações são da MetSul Meteorologia, em previsão publicada nesta quarta-feira (12).





