
As redes sociais já conseguem prever que a próxima onda da pandemia que se desenha no Brasil poderá ser ainda mais grave que as anteriores. Uma parceria entre o Facebook e a Universidade de Maryland dos Estados Unidos compila dados de usuários da rede social. Eles são sorteados para responder a uma pesquisa que inclui se eles têm sintomas semelhantes aos da covid-19 e desde quando os sentem. A Rede Análise Covid-19 estudou as informações referentes ao Brasil e, ao cruzá-las com os casos oficiais registrados pelo Ministério da Saúde, percebeu uma alta taxa de acerto, capaz de antecipar o cenário da crise sanitária em 15 dias antes do que mostrarão os boletins oficiais.
A perspectiva para as próximas duas semanas, porém, não é boa. Os dados mostram a proximidade de uma nova onda potencialmente mais grave no país, que já havia estacionado em um patamar elevado, com uma média de quase 2.000 mortes diárias pelo coronavírus e hospitais ainda sob pressão. O desfecho do que virá dependerá das medidas restritivas ―hoje relaxadas em grande parte do país― e da possibilidade de espalhamento da variante indiana. O cenário preocupa especialistas, que alertam para a necessidade de políticas efetivas para frear o contágio.
A metodologia desenvolvida pela Universidade de Maryland, que usa o Facebook como ferramenta para atingir usuários, não é absoluta, mas serve como um termômetro para o que virá nos próximos dias. Embora não quantifique exatamente uma previsão de crescimento ―ou seja, quanto a curva poderá subir―, seus dados revertidos em gráficos demonstram neste momento uma curva de crescimento íngrime e, por isso, preocupante. “Percebi um aumento de relato de sintomas muito forte, que é uma previsão do que pode acontecer. Já é possível ver uma subida grande no gráfico”, explica o especialista Isaac Schrarstzhaupt, coordenador na Rede Análise Covid-19.
Os sintomas considerados na metodologia são febre, tosse e falta de ar. A ferramenta é mais uma forma de tentar vislumbrar o futuro próximo da pandemia antes mesmo das notificações de diagnósticos, que costumam demorar cerca de duas semanas para aparecer nos dados oficiais pelas burocracias e tempo de processamento dos testes. Até agora, a curva desenhada nesta base de dados coincide com a curva de novos casos dos boletins oficiais.
“Se os dados [de covid-19] seguirem o caminho das outras ondas, nos próximos 15 dias teremos uma subida forte. Faço ressalvas porque esta é uma pesquisa, com dados adjacentes”, diz Schrarstzhaupt. Feita a ponderação, o que se vislumbra na análise de dados por Estado é a tendência de uma nova onda de infecções em todo o país.
“Está tudo muito ruim e não vejo uma região com um cenário mais grave. O aumento de pessoas reportando sintomas é constante em praticamente todo o país”, explica. A chegada do inverno historicamente já traz o aumento sazonal de doenças respiratórias, mas uma nova aceleração da pandemia guarda outras preocupações. Primeiro, os sistemas de saúde não desafogaram o suficiente para conseguir responder a uma nova subida exponencial e já estão pressionados em várias partes do país.
A equação ainda inclui a chegada da nova variante indiana, que pode acelerar ainda mais o crescimento, a depender do seu comportamento com a brasileira P1. Ambas são mais transmissíveis. “O Brasil parece que desistiu de se proteger e ficar recluso”, lamenta Schrarstzhaupt.
Vários Estados com sistemas de saúde pressionados
A curva de aumento no relato de sintomas no país corrobora com a sobrecarga hospitalar já visível em alguns Estados. Há filas de pacientes com covid-19 à espera de um leito de UTI em vários locais, como em regiões do Ceará, Rio Grande do Sul, Paraná, Minas Gerais, entre outros. São Paulo, o Estado mais populoso do país, já supera 80% de leitos ocupados e vê a fila por leito crescer no interior. A Secretaria da Saúde de Curitiba afirmou nesta semana ter chegado ao limite da expansão, e a cidade ampliou as restrições. As UTIs lá estão com mais de 100% de ocupação. Neste contexto, o saldo deixado pelas ondas anteriores não ajudam. “Na subida anterior, que ocorreu entre fevereiro e março, a gente não conseguiu deixar os hospitais realmente aliviarem”, lembra o pesquisador. Vários Estados retomaram a abertura de atividades mesmo com níveis de ocupação altos e agora começam a frear o ritmo de abertura, com várias cidades até aumentando as restrições.
“A doença pode subir de forma exponencial, mas a alta hospitalar não. As pessoas têm o tempo delas para se recuperar. Como estamos com hospitais muito cheios, mesmo que tivéssemos um aumento que não fosse ultraforte, já seria problemático”, argumenta Schrarstzhaupt. O último boletim do grupo Infogripe da Fiocruz ―que analisa os casos de síndrome aguda respiratória grave no país― aponta que após uma abertura precoce, o cenário é de retomada de alta nas internações em todo o país e vislumbra um agravamento para as próximas semanas.
Fonte: El País Brasil







