
O furto de amostras virais em um laboratório da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) acendeu um alerta sobre biossegurança e levantou dúvidas sobre possíveis riscos à população. Apesar da gravidade do caso, a chance de um vírus chegar ao público em geral ainda é considerada baixa — desde que protocolos sejam seguidos –, segundo um especialista.
A Polícia Federal deteve em flagrante a professora Soledad Palameta Miller, suspeita de subtrair amostras virais de um laboratório de alta segurança. Ela teria usado sua influência como professora para conseguir ter acesso ao local restrito.
Segundo o médico infectologista e professor da UNIFESP Klinger Faíco, vírus utilizados em pesquisa são armazenados sob condições altamente controladas. “O armazenamento é feito por criopreservação, com ultrafreezers de alta precisão e, em alguns casos, nitrogênio líquido. Esses materiais ficam em criotubos selados, dentro de estruturas com acesso restrito e monitorado”, explica ele.
Risco existe, mas é baixo
Apesar do controle rigoroso, há risco de contaminação. “Para que um vírus chegue à população, ele precisaria vencer várias barreiras de segurança, como o frasco, o freezer, a sala trancada e sistemas de filtragem de ar”, afirma o especialista.
Na prática, segundo o médico, os cenários mais preocupantes envolvem falhas humanas ou descarte inadequado de material biológico.
Caso um vírus com alto potencial de transmissão escape dessas barreiras, o impacto pode variar. “Se for um patógeno que não circula na região, a população pode não ter defesa imunológica, o que aumenta o risco de surtos localizados e até hospitalizações em massa”, alerta.
Os maiores possíveis afetados são alunos e pesquisadores na linha de frente do contato com amostras. Há o risco de infecção acidental de profissionais que lidam diretamente com os vírus. “O maior perigo costuma ser a infecção ocupacional, quando um funcionário é contaminado sem perceber”, diz.
Em caso de falha de protocolo, pode haver contato direto ou inalação de partículas virais.
“Nesses casos, é fundamental ativar protocolos de monitoramento para identificar possíveis infecções ocupacionais”, explica o profissional.
Incidentes são raros em ambientes de pesquisa
Mesmo com o alerta, o médico destaca que esse tipo de ocorrência é incomum. Em ambientes de pesquisa, falhas de biossegurança são tratadas como eventos graves e raros, que desencadeiam investigações rigorosas e podem levar até à interdição de laboratórios.
O Brasil, segundo o infectologista, segue padrões internacionais. “As normas são baseadas em diretrizes da OMS e contam com regulamentação de órgãos como a Anvisa e a CTNBio. Laboratórios de nível mais alto têm infraestrutura comparável à dos melhores do mundo”, afirma.
Medidas imediatas
Em situações de suspeita de contaminação ou vazamento, as medidas devem ser rápidas e rigorosas e contam com isolamento da área, identificação de todos que tiveram acesso ao local, desinfecção com agentes químicos específicos e comunicação às autoridades de saúde.
A depender do tipo de vírus envolvido, a resposta pode incluir monitoramento de contatos e outras ações preventivas.
Dinâmica do crime e investigação
O desaparecimento de caixas com amostras virais foi notificado para as autoridades no dia 13 de fevereiro. A falta foi sentida pelo Laboratório de Virologia Aplicada.
De acordo com informações da PF, a professora furtou o material e o transferiu para freezers de outros pesquisadores, descartando frascos em lixos comum, no caminho.
As investigações contam com ajuda da Anvisa, que localizou o material aberto e manipulado, encaminhando-o para análise no Ministério da Agricultura.
Os crimes investigados incluem furto qualificado, fraude processual e transporte irregular de organismo geneticamente modificado.
Medidas adotadas
A Justiça Federal concedeu liberdade provisória à investigada mediante o pagamento de fiança e a proibiu de frequentar os laboratórios da universidade.
Em nota oficial, a Unicamp afirmou colaborar integralmente com o inquérito e reiterou que os envolvidos serão responsabilizados conforme a lei. A universidade abriu uma investigação interna para apurar os fatos.
Por: CNN Brasil
*Com informações de Beto Souza, da CNN Brasil.







