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Quem produz o leite precisa ter voz


Santa Catarina aprendeu a produzir leite com eficiência. Nossos produtores investiram em tecnologia, genética, manejo, alimentação e melhoria das propriedades. O resultado está nos números: somos o 4º maior produtor de leite do Brasil, com mais de 24,5 mil produtores ligados à atividade. Em 2024, foram 3,3 bilhões de litros produzidos, o equivalente a 9% da produção nacional. E a força da cadeia continua crescendo: em 2025, as indústrias catarinenses captaram 3,5 bilhões de litros de leite, cerca de 13% de toda a captação brasileira.

Mas existe uma contradição que precisa ser enfrentada: produzir mais e produzir melhor já não é garantia de permanecer na atividade. Nos últimos anos, tenho acompanhado de perto as dificuldades enfrentadas pelos produtores de leite catarinenses. Preço baixo recebido pela produção, aumento dos custos, endividamento das propriedades e concorrência dos produtos importados formaram uma combinação que vem comprometendo a renda de muitas famílias.

É por isso que considero muito importante a criação da União Catarinense dos Produtores de Leite (UCPL), que começou a ser estruturada neste mês de agosto, reunindo produtores de diferentes regiões do nosso Estado. Mais do que o surgimento de uma nova entidade, vejo nesse movimento um recado bastante claro: quem produz quer participar das decisões que determinam o futuro da atividade.

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E está certo. Não podemos exigir eficiência apenas de quem está dentro da porteira. O produtor catarinense já fez, e continua fazendo, a sua parte. Modernizou a propriedade, aumentou a produtividade, incorporou novas tecnologias e trabalha todos os dias para entregar um alimento de qualidade à população.

Há, porém, problemas que ele simplesmente não consegue resolver sozinho. O produtor não define a política de importação de lácteos. Não estabelece as regras de defesa comercial. Não controla as condições de crédito, as políticas de seguro rural ou as decisões que interferem na competitividade entre o produto nacional e aquele que chega de outros países. Essas decisões passam também pelo poder público. E é justamente por isso que a voz de quem produz precisa chegar cada vez mais forte a Brasília.

Essa preocupação foi uma das razões que me levaram a apresentar o Projeto de Lei 4309/2023, que ficou conhecido como PL do Leite. A proposta busca impedir que leite em pó importado seja reconstituído no Brasil para comercialização como leite fluido, uma prática que amplia a pressão sobre uma cadeia que já enfrenta dificuldades para manter sua rentabilidade. Ele, inclusive, serviu de referência para o projeto aprovado pela Assembleia Legislativa de Santa Catarina e sancionado pelo governador Jorginho Mello.

Não se trata de fechar o Brasil ao comércio internacional ou de criar privilégios. Trata-se de garantir condições justas de concorrência para quem produz aqui, gera emprego aqui, paga impostos aqui e mantém renda circulando nos nossos municípios.

E há uma questão ainda maior por trás de tudo isso: quem continuará produzindo amanhã? Quando uma família abandona a atividade porque ela deixou de ser economicamente viável, não perdemos apenas litros de leite. Perdemos conhecimento, investimento, renda no interior e, muitas vezes, a possibilidade de sucessão naquela propriedade.

Queremos que os filhos dos nossos agricultores enxerguem no campo uma oportunidade de futuro, e não uma atividade da qual precisam sair para conseguir prosperar. Por isso, considero positiva toda iniciativa que fortaleça a organização e a representação dos produtores. Espero que a União Catarinense dos Produtores de Leite seja mais um canal permanente de diálogo e que consiga levar as diferentes realidades das regiões produtoras para as mesas onde as decisões são tomadas.

Santa Catarina mostrou que sabe produzir. Temos tecnologia, produtividade, qualidade e gente disposta a trabalhar. Agora precisamos garantir que produzir leite continue valendo a pena.

Porque defender a cadeia leiteira não é apenas defender um setor da economia. É defender milhares de famílias, a força dos pequenos e médios municípios, a permanência das pessoas no campo e uma atividade que faz parte da história e do futuro de Santa Catarina. E, para construir esse futuro, quem produz precisa ter voz.

Por Daniela Reinehr – deputada federal (PL/SC)

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