
A prisão de Felipe Linares de Oliveira Dell Aquilla, conhecido como “Don” ou “Dom”, nos Estados Unidos provocou questionamentos entre autoridades brasileiras após órgãos norte-americanos apontarem o brasileiro como ex-chefe do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV). Fontes da Polícia Federal, dos Ministérios Públicos e das polícias civis de São Paulo e do Rio de Janeiro afirmam, porém, que não há registros que sustentem essa classificação.
Segundo apuração do g1 e da GloboNews, o mandado de prisão que resultou na inclusão do nome de Dell Aquilla na lista de Difusão Vermelha da Interpol tem como base uma condenação definitiva por extorsão. A pena estabelecida pela Justiça brasileira é de nove anos e sete meses de prisão.
De acordo com investigadores consultados pela reportagem, Felipe Linares não é reconhecido como integrante relevante nem como ocupante de cargos de comando em qualquer uma das duas maiores facções criminosas do país. Autoridades ouvidas afirmaram ainda não possuir conhecimento de eventual vínculo formal dele com essas organizações.
Em São Paulo, os serviços de inteligência não possuem registros que indiquem ligação de Dell Aquilla com o PCC, tampouco histórico de passagem por penitenciárias paulistas. Investigadores destacaram que, caso ele ocupasse uma posição de liderança nas facções, seria amplamente conhecido pelos setores especializados no combate ao crime organizado.
Levantamentos em processos judiciais apontam que o investigado responde ou respondeu por acusações relacionadas a extorsão, tráfico de drogas, estelionato, ameaça e lesão corporal. Segundo as apurações, ele também atuou no setor de entretenimento e trabalhou em uma produtora musical cujo proprietário já foi alvo de investigações da Polícia Federal por suspeita de lavagem de dinheiro.
As autoridades brasileiras também analisaram informações de investigações que indicam que Dell Aquilla teria afirmado receber recursos provenientes de integrantes do PCC e do Comando Vermelho. No entanto, investigadores ressaltam que isso não o caracteriza como integrante ou liderança das facções.
Acusação de golpe em hotel de luxo

Felipe Linares também é réu em um processo por suposto estelionato envolvendo o Hotel Botanique, um dos mais luxuosos de Campos do Jordão, no interior paulista. Conforme a denúncia, ele teria adquirido duas diárias no valor de R$ 9,2 mil, se hospedado normalmente e, posteriormente, contestado a cobrança junto à administradora do cartão de crédito, alegando desconhecer a compra.
O hotel apresentou documentos indicando que o próprio investigado utilizou o veículo registrado em seu nome durante a hospedagem. Desde 2018, a Justiça tenta localizá-lo para intimação, sem sucesso. O processo segue à revelia.
Nos autos também constam registros de acusações relacionadas à agressão de uma ex-companheira e a uma disputa envolvendo um imóvel comercializado por ele.
Prisão nos Estados Unidos

Segundo o Serviço de Imigração e Controle de Alfândegas dos Estados Unidos (ICE), Dell Aquilla foi preso após uma perseguição na Carolina do Norte enquanto tentava seguir em direção ao México.
As autoridades norte-americanas informaram que havia contra ele uma ordem internacional de captura solicitada pelo Brasil por acusações relacionadas à extorsão e associação criminosa. Durante a abordagem, o suspeito teria tentado fugir, sofreu um acidente de trânsito e acabou capturado.
Ainda de acordo com o comunicado, os agentes encontraram uma arma de fogo, dinheiro em espécie e aparelhos celulares dentro do veículo. O ICE também informou que a esposa do investigado estaria sendo mantida como refém no carro no momento da perseguição.
Discussão sobre terrorismo

A repercussão do caso ocorre poucas semanas após os Estados Unidos classificarem o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas, decisão anunciada em 28 de maio deste ano.
A medida foi adotada mesmo após o governo brasileiro rejeitar pedido semelhante feito por representantes norte-americanos. Em 2025, autoridades brasileiras argumentaram que as facções não se enquadram na definição de terrorismo prevista na legislação nacional.
A Lei Antiterrorismo brasileira estabelece que atos terroristas devem ser motivados por xenofobia, discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia ou religião, com o objetivo de provocar terror social ou generalizado, características que, segundo o governo federal, não se aplicam às organizações criminosas.






