
O próximo presidente do Brasil assumirá, em janeiro de 2027, um cenário de pressão sobre as contas públicas. A dívida bruta do país chegou a R$ 11 trilhões em agosto de 2026, equivalente a 82,9% do Produto Interno Bruto (PIB), segundo dados do Banco Central.
O crescimento do endividamento ocorre em um contexto no qual as despesas do governo superam a arrecadação, exigindo a contratação de empréstimos para cobrir a diferença. O peso dos juros também contribui para ampliar a dívida.
O tema ganha relevância às vésperas do primeiro turno das eleições presidenciais, marcado para domingo (4). Apesar do impacto sobre a economia, o debate eleitoral ainda não apresentou propostas detalhadas de ajuste fiscal por parte dos principais candidatos, conforme análise publicada pelo InfoMoney.
Além do tamanho da dívida, o futuro governo terá de lidar com um Orçamento federal em que a maior parte dos recursos já está comprometida com despesas obrigatórias, como aposentadorias, salários e investimentos mínimos em áreas previstas na Constituição.
Quanto cresceu a dívida pública brasileira?
A dívida bruta do Brasil passou de aproximadamente R$ 2,7 trilhões, no fim de 2013, para R$ 11 trilhões em agosto de 2026. No mesmo intervalo, a relação entre dívida e PIB subiu de 51,5% para 82,9%.
A comparação com o tamanho da economia é utilizada para avaliar a capacidade do país de sustentar seu endividamento, já que os valores nominais também sofrem influência da inflação.
O crescimento foi mais acentuado a partir de 2014, com altas expressivas em 2015 e 2020. Durante a pandemia, a dívida chegou perto de 88% do PIB. Em 2022, a proporção recuou, em parte pelo aumento do PIB nominal provocado pela inflação.
As projeções citadas pelo InfoMoney indicam continuidade da alta. A consultoria 4intelligence estima que a dívida alcance 87,9% do PIB em 2027. Já as expectativas de mercado compiladas pelo Banco Central apontam para 102% em 2035.
Por que os juros pesam tanto sobre a dívida pública?
A conta de juros é apontada como um dos principais fatores de crescimento do endividamento brasileiro. Em 2025, segundo o Banco Central, os juros responderam por quase toda a elevação da dívida, enquanto o resultado negativo das contas antes do pagamento dos juros teve participação menor.
A taxa básica de juros, a Selic, permanece elevada como parte da estratégia de combate à inflação. Mesmo com cortes recentes, o custo do crédito continua pressionando famílias, empresas e o próprio governo.
A percepção de risco fiscal também influencia os juros. Quando investidores demonstram preocupação com a capacidade do governo de controlar suas contas, podem exigir remuneração maior para financiar a dívida pública.
Esse movimento pressiona os juros de longo prazo e reduz o espaço para cortes mais intensos da Selic, afetando financiamentos, investimentos e o consumo.
O problema da dívida pública ocorre apenas no Brasil?
Não. O aumento do endividamento é uma preocupação em diferentes economias, especialmente após os gastos realizados durante a pandemia e a elevação dos custos de financiamento.
Nos Estados Unidos, a dívida pública ultrapassou US$ 40 trilhões, enquanto o pagamento anual de juros se aproxima de US$ 1 trilhão, conforme os dados citados na reportagem.
Na França, o aumento dos custos de financiamento também passou a exigir atenção. O cenário internacional é influenciado ainda pela inflação e pelas oscilações nos preços do petróleo.
No caso brasileiro, porém, economistas ouvidos pelo InfoMoney ressaltam que a situação externa não elimina a necessidade de enfrentar os desequilíbrios internos.
O que seria necessário para estabilizar a dívida?
Uma das alternativas apontadas por economistas é a recuperação de resultados positivos nas contas públicas antes do pagamento dos juros, indicador conhecido como resultado primário.
Estimativas citadas na reportagem apontam que seria necessário um esforço fiscal equivalente a cortes de despesas entre 2% e 3,4% do PIB para interromper a trajetória de crescimento da dívida. Economistas avaliam, contudo, que uma mudança dessa dimensão seria difícil de implementar no curto prazo.
Entre as medidas discutidas estão a revisão de subsídios, mudanças nas despesas obrigatórias e aperfeiçoamento das regras fiscais.
A arrecadação também faz parte do debate. Exportações de commodities e investimentos em setores como tecnologia e data centers são apontados como possíveis fontes de receita e atividade econômica.
Por que o Orçamento de 2027 preocupa os economistas?
A maior parte das despesas federais já está comprometida por obrigações legais. Na proposta de Orçamento de 2027, as despesas obrigatórias representam 91,7% dos gastos primários, que não incluem os juros da dívida.
Nesse grupo estão aposentadorias, salários, benefícios e pisos constitucionais destinados à Saúde e à Educação. Como parte dessas despesas cresce automaticamente, o espaço para decisões sobre outros investimentos e programas fica limitado.
O ministro do Planejamento e Orçamento, Bruno Moretti, afirmou durante a apresentação da proposta que a desaceleração das despesas obrigatórias ampliou o espaço para gastos discricionários, embora ainda em volume reduzido.
A discussão envolve, portanto, não apenas o volume total de gastos, mas a capacidade do governo de alterar sua composição.
Quais são as propostas fiscais dos principais candidatos à Presidência?
A análise do Goldman Sachs citada pelo InfoMoney aponta diferenças nas linhas gerais dos programas de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), principais nomes da disputa presidencial mencionados na reportagem.
Segundo a avaliação da instituição, um eventual novo mandato de Lula poderia adotar medidas mais moderadas de contenção de despesas e aumento de arrecadação. Já uma eventual gestão de Flávio Bolsonaro tenderia a priorizar cortes, privatizações e mudanças nas regras fiscais.
Economistas ouvidos pela reportagem, no entanto, apontam que ainda faltam detalhes sobre como as propostas seriam implementadas e quais despesas seriam afetadas.
As avaliações representam interpretações dos analistas sobre os programas apresentados, e não medidas já aprovadas ou executadas.
Por que o próximo presidente dependerá do Congresso para ajustar as contas?
Parte das mudanças necessárias nas despesas públicas depende de aprovação do Congresso Nacional. Alterações em regras constitucionais, benefícios e obrigações legais exigem articulação política e, em alguns casos, quórum qualificado.
Por isso, o resultado eleitoral será apenas o primeiro passo de uma discussão que envolve a composição do Legislativo e a capacidade de construir acordos.
A experiência internacional indica que ajustes fiscais podem estabilizar ou reduzir o endividamento, mas os resultados dependem da combinação de medidas, do ritmo de implementação e das condições econômicas.
O desafio do próximo governo será definir uma estratégia capaz de enfrentar a trajetória da dívida sem ignorar os efeitos das decisões sobre serviços públicos, investimentos, inflação e crescimento econômico.
Fonte: InfoMoney.






