segunda-feira, agosto 3, 2026
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Calendário do futebol: por que nunca houve tantos jogos e como isso mudou a rotina de jogadores e torcedores

Foto: Divulgação

Até o início dos anos 2000, acompanhar futebol era uma tarefa simples para a maioria dos torcedores.

Os campeonatos nacionais dominavam os finais de semana, enquanto as noites de terça e quarta-feira ficavam reservadas para os grandes torneios continentais.

As seleções apareciam apenas em algumas datas FIFA ao longo do ano e, a cada quatro anos, a Copa do Mundo parava o planeta por um mês. Era um ciclo previsível, conhecido pelos clubes, jogadores e torcedores.

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Hoje, esse cenário praticamente desapareceu. Em qualquer dia do ano há partidas relevantes acontecendo em algum lugar do mundo.

A pergunta, portanto, é inevitável: como chegamos a esse ponto?

O futebol entrou em uma corrida por espaço no calendário

É comum ouvir que “hoje existe futebol demais”, mas essa sensação não surgiu por acaso. Ela é consequência de uma série de decisões tomadas pelas principais entidades do esporte ao longo da última década.

Enquanto outras modalidades discutiam formas de reduzir o desgaste físico dos atletas, o futebol seguiu o caminho oposto: criou novas competições, ampliou torneios já existentes e aumentou o número de participantes em eventos internacionais.

A UEFA foi uma das protagonistas dessa transformação. Em 2021 lançou a Conference League, abrindo espaço para clubes que antes ficavam fora das competições europeias. Pouco tempo depois, reformulou completamente a Champions League e a Liga Europa.

A FIFA também passou a disputar espaço nesse calendário cada vez mais apertado.

O antigo Mundial de Clubes, disputado em poucos dias e com apenas sete participantes, foi transformado em uma competição com 32 equipes e duração de quase um mês. Na prática, surgiu uma nova janela internacional dentro de uma temporada que já sofria com excesso de datas.

Além disso, a Copa do Mundo masculina foi ampliada para 48 seleções a partir de 2026. Embora a mudança aumente a representatividade de diferentes continentes, ela também exige ajustes em eliminatórias, datas FIFA e preparação das seleções nacionais.

Na Europa, a criação da Nations League reduziu significativamente o número de amistosos internacionais, mas adicionou uma competição oficial ao calendário das seleções. Na América do Sul, Libertadores e Copa Sul-Americana ganharam mais fases, mais participantes e mais datas ao longo do ano.

O Brasil vive um calendário ainda mais complexo

Se o cenário europeu já preocupa treinadores e atletas, o futebol brasileiro adiciona um ingrediente que praticamente não existe nas principais ligas do continente: os campeonatos estaduais.

Mesmo com críticas recorrentes sobre seu espaço no calendário, os estaduais continuam ocupando cerca de três meses da temporada. Depois deles, os clubes ainda precisam conciliar Campeonato Brasileiro, Copa do Brasil e, em muitos casos, Libertadores ou Copa Sul-Americana.

Não é raro que equipes brasileiras ultrapassem 70 partidas oficiais em um único ano.

O preço pago pelos jogadores

Uma pesquisa da FIFPRO, entidade que representa jogadores profissionais em todo o mundo, alerta que atletas de elite convivem com períodos insuficientes de recuperação entre partidas. Segundo a organização, calendários congestionados podem aumentar os riscos de fadiga acumulada, problemas físicos e impactos relacionados à saúde mental dos jogadores.

É comum que jogadores das principais ligas europeias acumulam dezenas de partidas por temporada somando clubes e seleções, muitas vezes com menos de quatro dias de intervalo entre os compromissos.

Técnicos como Pep Guardiola, Jürgen Klopp e Carlo Ancelotti já criticaram publicamente o congestionamento do calendário, argumentando que o excesso de jogos reduz a qualidade técnica das partidas e aumenta o desgaste físico dos atletas.

O torcedor também precisou mudar seus hábitos

Até poucos anos atrás, acompanhar futebol significava reservar duas horas para assistir aos 90 minutos da partida do próprio time. Os demais resultados eram conhecidos no programa esportivo da noite ou no jornal do dia seguinte.

Hoje, essa lógica simplesmente não funciona.

Em uma única quarta-feira podem acontecer simultaneamente jogos da Champions League, Copa do Brasil, Libertadores, MLS e campeonatos nacionais espalhados pelo mundo. Nem mesmo quem possui todos os serviços de streaming consegue acompanhar todas as partidas.

O resultado foi uma mudança profunda no comportamento do público.

Como acompanhar tantos jogos ao mesmo tempo?

Foi justamente dessa nova realidade que surgiram ferramentas capazes de concentrar informações de diferentes partidas em um único lugar.

Em vez de depender apenas da televisão ou do streaming, é comum recorrer a coberturas em tempo real dos jogos, que reúnem placares, estatísticas e atualizações da partida enquanto ela acontece. Dessa forma, fica mais fácil acompanhar diferentes confrontos ao longo do dia, mesmo quando não é possível assistir a todos eles.

A proposta não é substituir a transmissão ao vivo, mas complementar a experiência de quem acompanha mais de uma competição ao mesmo tempo. Enquanto um jogo está na televisão, outros podem ser monitorados em tempo real pelo computador ou celular, permitindo acompanhar praticamente toda a rodada sem perder os lances mais importantes.

Essa experiência de assistir jogos em diferentes plataformas pode coexistir ao mesmo tempo, a chamada segunda tela.

Segundo estudos da Deloitte sobre comportamento dos fãs de esporte, dispositivos móveis ganharam protagonismo durante as transmissões esportivas.

O torcedor alterna constantemente entre o jogo, redes sociais, aplicativos de estatísticas e notificações em tempo real.

É comum assistir ao confronto principal enquanto se acompanha a rodada inteira pelo smartphone.

Mais do que um hábito, essa prática tornou-se praticamente uma necessidade diante da quantidade de competições acontecendo simultaneamente.

Estatísticas deixaram de ser exclusividade dos analistas

Outro efeito da explosão do calendário foi o crescimento do interesse por dados.

Se antes estatísticas detalhadas eram utilizadas apenas por comissões técnicas, hoje qualquer torcedor acompanha informações como posse de bola, mapas de calor, gols esperados (xG), passes progressivos e pressão ofensiva durante a própria partida.

Essa riqueza de dados mudou a forma de assistir futebol. Muitos torcedores acompanham um jogo mesmo sem assistir à transmissão completa, interpretando o desempenho das equipes por meio de estatísticas atualizadas em tempo real.

Existe futebol demais?

Para FIFA, UEFA e demais organizadores, a ampliação das competições fortalece o esporte, aumenta receitas e leva grandes torneios para novos mercados.

Já clubes, treinadores e representantes dos jogadores defendem limites mais claros para preservar a saúde dos atletas e manter o nível técnico das competições.

Enquanto esse debate continua, uma conclusão parece inevitável.

O futebol nunca esteve tão presente na rotina das pessoas. Ao mesmo tempo, nunca foi tão difícil acompanhar tudo o que acontece.

E tudo indica que essa transformação está apenas começando.

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