
A noite desta segunda-feira (16) foi marcada por um debate urgente sobre a realidade de milhares de famílias que vivem da produção de cebola em Santa Catarina.
A Assembleia Legislativa reuniu agricultores, prefeitos, vereadores, técnicos e lideranças do setor em audiência pública proposta pelo deputado Mário Motta (PSD), por meio da Comissão de Agricultura e Desenvolvimento Rural.
O encontro, realizado na Câmara Municipal de Ituporanga, buscou encaminhar soluções imediatas e estratégias de médio e longo prazo diante da queda nos preços e do aumento da oferta no mercado.
Safra recorde, mas prejuízo no campo
A atual safra catarinense é considerada histórica em volume e qualidade. Segundo dados da Epagri, o estado deve alcançar cerca de 610 mil toneladas, com produtividade média que pode chegar a 35 ou 36 toneladas por hectare, superando a expectativa inicial de 32 toneladas.
No entanto, o resultado positivo no campo se transformou em dificuldade econômica para os produtores, que enfrentam preços abaixo do custo de produção.
Impacto econômico em Ituporanga
No município de Ituporanga, conhecido como a capital nacional da cebola, mais de 700 famílias dependem diretamente da cultura, responsável por cerca de 14% da produção brasileira. A safra 2025/2026 registrou 160 mil toneladas, um recorde histórico.
Ainda assim, o custo médio para cultivar um hectare gira em torno de R$ 50 mil, enquanto o custo por quilo produzido varia entre R$ 1,30 e R$ 1,40 — valores superiores ao preço pago em vários momentos da comercialização.
Propostas e alternativas discutidas
Para o deputado Mário Motta, a combinação entre superprodução, dificuldades de mercado e importações no período de pico agravou a crise. Ele destaca que a qualidade da cebola catarinense nunca foi tão alta, mas que duas safras consecutivas com preços baixos comprometem a capacidade de recuperação financeira dos agricultores.
Entre as alternativas debatidas estão linhas de crédito com juros reduzidos, renegociação de dívidas e incentivo à diversificação produtiva.
“Precisamos encontrar alternativas que passam desde a diminuição de juros, empréstimos que possam cobrir os prejuízos atuais com prazos e com subsídios, quem sabe, dos próprios governos e políticas públicas que direcionem a região, quem sabe para não só a monocultura da cebola, mas encontrar outras alternativas para futuro.”, comentou o deputado.
Relatos dos produtores
A realidade econômica se traduz em histórias pessoais. O produtor Adélio Schiestl carrega a cebola como herança familiar desde a infância. Ele relata que o custo elevado e a volatilidade dos preços tornam o trabalho cada vez mais arriscado.
“A gente planta com esperança, mas muitas vezes fica refém do mercado. Depois de colher, temos cerca de 60 dias para pagar o custeio. Quando há muita oferta, o preço despenca e a conta não fecha”, afirma.
Segundo ele, uma medida emergencial seria a suspensão ou prorrogação dos pagamentos financeiros, permitindo fôlego para a próxima safra.
Necessidade de soluções estruturais
Para o presidente da Comissão de Agricultura, deputado Altair Silva (PP), a crise exige respostas estruturantes.
“Tivemos um verão com boas chuvas e uma altíssima produtividade, somada à produção de outras regiões do país. Quando há muita oferta ao mesmo tempo, os preços caem. Em poucos dias a cebola saiu de 60 centavos para dois reais, reagiu com as chuvas em Minas Gerais, mas voltou a cair para cerca de R$ 1,50. Precisamos avançar na tecnologia de armazenagem para que o produtor consiga segurar o produto e vender de forma escalonada, praticando preços médios mais equilibrados”, afirmou.
O parlamentar também destacou a necessidade de padronização na classificação da cebola, apontando que divergências nos critérios de medição do tamanho do produto acabam prejudicando o agricultor no momento da comercialização.
“Produzir com qualidade nós sabemos. Agora precisamos criar políticas sólidas, com financiamento e juros acessíveis, para investir em armazenagem e renegociar as dívidas dos produtores”, completou.
Crise atinge outras culturas
Já o deputado Oscar Gutz (PL) ampliou o debate para o cenário mais amplo do setor agropecuário.
“Não é só a cebola. O leite, o arroz e várias outras culturas também enfrentam dificuldades. O excesso de produção e a falta de políticas adequadas colocam o agricultor em uma situação de risco. Se continuar assim, muitos não conseguirão permanecer na atividade”, afirmou.
Para ele, a audiência pública representa uma oportunidade de mobilização conjunta em defesa dos produtores.
“Precisamos trabalhar para melhorar a situação do agricultor catarinense em todas as áreas. Houve uma pequena recuperação no preço da cebola, mas ainda está longe do suficiente.”
A crise não se limita às propriedades rurais. O prefeito de Ituporanga, Geison Kurtz (PP), explica que a cadeia produtiva impacta diretamente a economia local.
“Cerca de 20% da economia do município depende da cebola. Quando o preço não cobre nem metade do custo, o comércio, a arrecadação pública e o planejamento regional também são afetados”, pontua.
O modelo de decreto de calamidade adotado pelo município já foi replicado por mais de 35 cidades.
Importações pressionam o mercado
Outro fator apontado pelos produtores é a entrada de cebola importada, principalmente da Argentina e do Uruguai, em momentos estratégicos de mercado.
O agricultor Almir Schaefer, com 45 anos de experiência na lavoura, relata que a retomada dos preços no início do ano foi interrompida com o aumento da oferta externa.
“Quando parecia que o valor ia se manter em torno de dois reais, a importação voltou a pressionar o mercado”, observa.
Análise técnica e soluções
Do ponto de vista técnico, o engenheiro agrônomo da Epagri, Daniel Schmitt, explica que a coincidência de superprodução em Santa Catarina, Rio Grande do Sul e Minas Gerais contribuiu para a queda nos preços.
Como a cebola é consumida principalmente como tempero, o aumento da oferta não se traduz automaticamente em aumento da demanda.
Entre as soluções, ele destaca investimentos em armazenamento, venda escalonada e diversificação de culturas, reduzindo a dependência da monocultura.
“O trabalho da Epagri é levar aos produtores tecnologias de armazenamento pra que consigam estender o máximo o período de comercialização e o país possa depender menos de importação especialmente da Argentina, outra solução seria a venda escalonada, que é o que a gente está propondo nesse ano, que o produtor venda num período alongado pra que consiga ter um preço médio melhor um preço médio mais mais justo” pontuou.
Encaminhamentos
O presidente da Comissão de Agricultura, deputado Altair Silva (PP), destacou que será encaminhada ao governo federal e ao Banco Central uma carta intitulada “Solicitação de adoção de medidas para mitigação da crise da cadeia produtiva da cebola em Santa Catarina”, com o objetivo de solicitar providências para superar a grave situação enfrentada pelos produtores.
Medidas propostas
- Prorrogação de financiamentos agrícolas
Solicita-se a prorrogação dos financiamentos vinculados à produção de cebola, sem que isso implique restrição ou perda da capacidade de acesso dos produtores a novas linhas de crédito rural. - Adequação da comercialização por classificação
Propõe-se o fortalecimento da fiscalização e do cumprimento das normas de classificação e padronização da cebola por bitolas, conforme os padrões estabelecidos para a comercialização do produto. - Adoção de medidas para evitar a importação no pico da safra nacional
Defende-se a avaliação de mecanismos regulatórios ou de gestão do comércio internacional que reduzam a entrada de cebola importada no mercado brasileiro durante o período de maior oferta interna, evitando desequilíbrios na formação de preços. - Adequação do calendário de vencimento do crédito rural
Solicita-se a revisão do calendário de vencimento das operações de crédito vinculadas à cultura da cebola, para que os prazos ocorram preferencialmente entre os meses de maio e junho, período que corresponde a cerca de 120 a 180 dias após a colheita.
Expectativa dos produtores
Apesar das dificuldades, a esperança permanece como elemento central na vida no campo. Para Adélio, o futuro ainda é construído com persistência.
“O agricultor sempre acredita que a próxima safra pode ser melhor. O preço ideal seria em torno de dois reais por quilo. É isso que garantiria dignidade e continuidade na produção”, resume.





