
Por que Abu Dhabi quer reduzir a dependência de Ormuz?
Abu Dhabi está ampliando os planos para diminuir sua dependência do Estreito de Ormuz, uma das principais rotas marítimas para o transporte de petróleo e outras commodities do Golfo Pérsico. A estratégia ganhou força em meio ao conflito com o Irã e aos riscos de interrupções no tráfego pela região.
O projeto é liderado pelo príncipe herdeiro de Abu Dhabi, Sheikh Khaled bin Mohamed Al Nahyan, que assumiu o comando da L’imad Holding, estrutura de investimentos com cerca de US$ 300 bilhões. O plano é conhecido dentro do emirado como “Zero Hormuz”.
Quanto Abu Dhabi pretende investir nessa estratégia?
A L’imad Holding deve direcionar dezenas de bilhões de dólares para novos projetos de infraestrutura portuária fora do Estreito de Ormuz. O movimento ganhou destaque após o anúncio de uma operação para fechar o capital da Abu Dhabi Ports Co., avaliada em quase US$ 9 bilhões, segundo informações citadas pela Bloomberg.
Em maio, a L’imad também firmou uma parceria com a BlackRock, a Temasek Holdings e a Abu Dhabi National Oil Co. (Adnoc) para buscar até US$ 30 bilhões em investimentos voltados a transporte de energia, logística e infraestrutura hídrica.
A intenção é criar rotas alternativas para produtos como petróleo, petroquímicos e alumínio, reduzindo os efeitos de eventuais bloqueios ou ataques na região.
Qual é o papel de Fujairah nesse plano?
A cidade de Fujairah, na costa do Golfo de Omã, está no centro da estratégia. Diferentemente dos principais terminais localizados no Golfo Pérsico, o porto fica fora do Estreito de Ormuz e tem acesso direto ao oceano Índico.
A L’imad pretende ampliar a infraestrutura portuária no local. A Adnoc também está construindo um segundo oleoduto para Fujairah, projeto que deve dobrar a capacidade de exportação da companhia pelo terminal. Sheikh Khaled preside o comitê executivo do conselho da Adnoc e determinou a aceleração do empreendimento.
A infraestrutura logística também avançou. Em setembro, a Etihad Rail e o AD Ports Group iniciaram um serviço ferroviário direto entre os terminais de Fujairah e a área industrial de Abu Dhabi, criando uma ligação terrestre entre a costa leste e o centro industrial do emirado.
O Estreito de Ormuz pode ser totalmente substituído?
A estratégia não elimina todos os riscos nem significa que Ormuz deixará de ser utilizado. O objetivo é criar alternativas para reduzir a exposição do emirado à rota.
O desafio é maior para algumas commodities. Oleodutos podem transportar petróleo por rotas alternativas, mas produtos como gás natural e alumínio dependem de estruturas diferentes. Além disso, mesmo instalações localizadas fora do estreito continuam expostas a riscos militares na região.
Fujairah, por exemplo, também foi atingida durante o conflito. Em março, destroços de um drone interceptado provocaram um incêndio na região do polo de comercialização de petróleo, segundo informações citadas pela Bloomberg.
Outros países do Golfo também buscam rotas alternativas?
Sim. A Arábia Saudita também investe em alternativas ao Estreito de Ormuz. O país utiliza o oleoduto East-West, que permite transportar petróleo do leste saudita até instalações no Mar Vermelho, evitando a passagem pelo estreito.
A experiência saudita, porém, mostra que as rotas alternativas também podem sofrer interrupções. Ataques de grupos aliados ao Irã já afetaram temporariamente o funcionamento dessa infraestrutura.
Nos Emirados Árabes Unidos, além da L’imad e da Adnoc, a DP World desenvolve novos terminais de contêineres em Fujairah. O conjunto de projetos faz parte de uma estratégia mais ampla para ampliar as opções de transporte e exportação do país.
Como Sheikh Khaled passou a comandar essa estratégia?
Sheikh Khaled bin Mohamed Al Nahyan é filho mais velho do presidente dos Emirados Árabes Unidos, Sheikh Mohamed bin Zayed Al Nahyan. Ele foi nomeado príncipe herdeiro de Abu Dhabi em 2023 e passou a assumir funções cada vez mais importantes nas áreas econômica e diplomática.
Em 2026, o fundo ADQ, anteriormente liderado por seu tio Sheikh Tahnoon, foi incorporado à L’imad. A estrutura ampliada passou por mudanças administrativas e reorganização de investimentos, aumentando seu peso na estratégia econômica de Abu Dhabi.
O príncipe também tem participado de agendas internacionais. Em setembro, ele presidiu uma reunião do comitê executivo do conselho da Adnoc para tratar da segurança do fornecimento de energia diante das dificuldades na navegação marítima regional.
A estratégia econômica também envolve diplomacia?
Sim. Enquanto investe em rotas alternativas, os Emirados Árabes Unidos mantêm contatos diplomáticos com o Irã.
Sheikh Khaled se reuniu recentemente com o presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, durante a cúpula do Brics, na Índia. Ao mesmo tempo, Abu Dhabi mantém relações econômicas importantes com China e Estados Unidos, o que exige equilíbrio na condução de sua política externa.
A estratégia “Zero Hormuz”, portanto, combina investimentos em infraestrutura, energia e logística com esforços diplomáticos. O objetivo é ampliar as alternativas de comércio dos Emirados diante das incertezas provocadas pelo conflito regional.







